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Resumo
Apresenta-se neste trabalho, comparativamente, as
internações e custos hospitalares da rede SUS segundo as principais
doenças tabaco-relacionadas, no Brasil, no Estado de São Paulo e na
Capital do Estado, referentes ao período 1998-2004, visando a
contribuir para o controle do tabagismo e sua diminuição como fator
de risco. No SUS, em relação ao total de custos de internação por
todas as causas, as doenças tabaco-relacionadas, representaram
aproximadamente 20%, tanto no Brasil, como no Estado de São Paulo e
na Capital do Estado. Já em relação ao número total de internações
no SUS, a porcentagem foi maior no Brasil (16,2%), intermediária no
Estado (14,5%) e menor na Capital (12,3%). As doenças
cardiovasculares foram as mais freqüentes e apresentaram 73% do total
de custos.
Abstract
This
paper presents a comparative analysis of internments and hospital
costs for the units of the Sistema Único de Saúde – SUS (Single
Health System, the National health Network of Brazil), according to
the major tobacco related diseases, in Brazil, in the State of São
Paulo, and in the capital of this state, the city of São Paulo,
regarding the period between 1998-2004, as a contribution to the
efforts of tobacco control, therefore decreasing it as a risk factor.
Regarding total internment costs, in SUS, for all causes, tobacco
related diseases represent circa 20% in Brazil, remaining in the same
proportion both for the State and the city of São Paulo. Regarding
total number of internments occurring in the System, the percentage
was higher in Brazil (16,2%), intermediate in the State of São Paulo
and lower in the city of São Paulo (12,3%). Cardiovascular diseases
were the more frequent and represent 73% of total costs.
Descritores: tabaco, doenças tabaco-relacionadas, custo-benefício,
custos hospitalares na rede pública, controle do tabagismo, diminuição
de fatores de risco.
Key words: tobacco,
tobacco related diseases, cost-benefits, public hospital costs,
tobacco control, reduction of risk factors.
Introdução
Aspectos econômicos do tabaco
Segundo o Instituto Nacional de Câncer3,
do Ministério da Saúde, o tabagismo gera uma perda de US$ 200 milhões
por ano no mundo, sendo que a metade dela ocorre nos países em
desenvolvimento. Este valor, calculado pelo Banco Mundial, é o
resultado da soma de vários aspectos, como o tratamento das doenças
tabaco-relacionadas, mortes de cidadãos em idade produtiva, maior índice
de aposentadorias precoces, aumento no índice de faltas e menor
rendimento produtivo.
Em relação aos custos do
tratamento das doenças tabaco-relacionadas, é possível dividi-los
em duas categorias: tangíveis e intangíveis.
Custos tangíveis:
a)
Assistência à saúde (serviços médicos, prescrição de
medicamentos, serviços hospitalares etc.)
b)
Perda de produção devido à morte e ao adoecimento e à redução
da produtividade
c)
Aposentadorias precoces e pensões
d)
Incêndios e outros tipos de acidentes
e)
Poluição e degradação ambiental
f)
Pesquisa e educação
Custos intangíveis:
a)
A morte de fumantes e não-fumantes
b)
O sofrimento dos fumantes, não-fumantes e seus familiares
Objetiva-se com este trabalho apresentar,
comparativamente, as internações e custos hospitalares da rede do
Sistema Único de Saúde (SUS), segundo as principais doenças
tabaco-relacionadas no Brasil, no Estado de São Paulo e na Capital
paulista, referentes ao período 1998-2004, visando a contribuir para
o controle do tabagismo e sua diminuição como fator de risco.
Método
Os
dados desta pesquisa foram obtidos no Sistema de Informações
Hospitalares (SIH) do Datasus, do Ministério da Saúde, segundo
internação por residência. Os serviços são financiados pelo setor
público. O documento que origina a informação chama-se Autorização
de Internação Hospitalar (AIH), que apresenta a desvantagem de ser
preenchido com o diagnóstico de internação e não o de alta
hospitalar, que seria mais confiável. Consideraram-se todas as
idades. Os custos não foram atualizados, por não existir um fator
econômico de correção compreensível por um leigo.
O tabaco tem relação causal com
muitas doenças, conhecidas como “doenças tabaco-relacionadas”.
Adotou-se como fundamento a lista de “Distúrbios à saúde
provocados pelo tabaco”, publicada pela Secretaria de Estado da Saúde
de São Paulo5 e, também, pelo INCA(6).
Neste trabalho apresentam-se 12
doenças ou grupos de doenças principais. Utilizou-se a Lista de
Morbidade da CID-10, fornecida pelo Datasus. Agruparam-se as doenças
da seguinte forma:
1.
Câncer: lábio, cavidade bucal e faringe,
esôfago, fígado e vias biliares intra-hepáticas, pâncreas,
laringe, traquéia, brônquios e pulmões, mama, colo do útero,
bexiga, doença de Hodgkin.
2.
Doenças isquêmicas do coração:
infarto agudo do miocárdio e outras doenças isquêmicas do coração.
3.
Doenças cerebrovasculares:
hemorragia intracraniana, infarto cerebral, acidente vascular cerebral
não-especificado como hemorrágico ou isquêmico e outras doenças
cerebrovasculares.
4.
Outras doenças vasculares:
aterosclerose, outras doenças vasculares periféricas, embolia e
trombose arteriais, flebite e tromboflebite, embolia e trombose
venosa.
5.
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC):
bronquite crônica, enfisema e outras doenças pulmonares obstrutivas
crônicas.
6.
Nefrites: síndromes nefríticas, outras doenças
glomerulares e nefrites túbulo-intersticiais.
Consideraram-se
também as seguintes doenças:
o
Hipertensão
arterial sistêmica
o
Insuficiência
cardíaca
o
Influenza
[gripe]
o
Tuberculose
respiratória
o
Asma
o
Úlcera
gástrica e duodenal
Como se referenciou, apresenta-se neste
trabalho o número de internações hospitalares por doenças
tabaco-relacionadas, mas acredita-se que o tabagismo seja responsável
por1,7
·
90%,
câncer de pulmão;
·
30%,
câncer de outras localizações (boca, laringe, faringe esôfago, pâncreas,
rim, bexiga, colo do útero);
·
45%,
infarto agudo do miocárdio em indivíduos com menos de 65 anos;
·
25%,
doença coronariana na população em geral e 45% em indivíduos com
menos de 60 anos;
·
25%,
doenças vasculares (inclui as doenças cerebrovasculares);
·
40%,
bronquite crônica;
e
·
85%,
bronquite crônica e enfisema.
Resultados
A tabela 1 mostra que, no Brasil, as
principais internações foram devidas à insuficiência cardíaca
(2.658.530), doenças pulmonares obstrutivas crônicas (1.183.240) e
doenças cerebrovasculares (1.236.724). Os custos mais elevados
concentraram-se nas doenças isquêmicas do coração (R$
1.964.530.320,00), na insuficiência cardíaca
(R$ 1.390.530.119,00) e
nas doenças cerebrovasculares (R$ 901.890.376,00). O custo médio de
cada internação variou de R$ 160,00 (hipertensão arterial sistêmica)
até R$ 1.763,00 (doença isquêmica do coração).
No Brasil, a média de permanência hospitalar
por doenças tabaco-relacionadas foi de 5,9 dias, variando de 3,3 dias
(asma) a 24,4 dias (tuberculose respiratória).
Tabela 1
Número
de internações hospitalares no Sistema Único de Saúde, custos
totais, custo médio (CM) de cada internação e média de permanência
hospitalar (MPH) em dias, segundo as principais doenças
tabaco-relacionadas, Brasil, 1998-2004.
|
Doenças tabaco-relacionadas
|
Internações
|
Custos totais (R$)
|
CM(R$)
|
MPH
|
|
Câncer
|
750.696
|
506.827.446
|
675
|
6,9
|
|
Hipertensão arterial sistêmica
|
812.547
|
130.042.898
|
160
|
4,1
|
|
Doenças isquêmicas do coração
|
1.114.195
|
1.964.530.320
|
1.763
|
6,7
|
|
Insuficiência cardíaca
|
2.658.530
|
1.390.530.119
|
523
|
5,9
|
|
Doenças cerebrovasculares
|
1.236.724
|
901.890.376
|
729
|
9,8
|
|
Outras doenças vasculares
|
434.032
|
316.532.988
|
729
|
9,6
|
|
Influenza [gripe]
|
225.461
|
87.179.103
|
387
|
5,3
|
|
Tuberculose respiratória
|
137.240
|
100.547.963
|
733
|
24,4
|
|
Doença pulmonar obstrutiva crônica
|
1.683.240
|
680.996.871
|
405
|
5,8
|
|
Asma
|
2.571.590
|
759.115.643
|
295
|
3,3
|
|
Úlcera gástrica e duodenal
|
318.489
|
95.160.741
|
299
|
5,0
|
|
Nefrites
|
1.358.725
|
282.939.491
|
208
|
4,7
|
|
Total tabaco-relacionadas
|
13.301.469
|
7.216.293.958
|
543
|
5,9
|
A tabela 2 mostra que no Estado de São Paulo
as principais internações foram devidas à insuficiência cardíaca
(402.540), doenças isquêmicas do coração (330.878), asma (260.164)
e doenças cerebrovasculares (255.245). Os custos mais elevados
concentraram-se nas doenças isquêmicas do coração (R$
633.687.138,00), na insuficiência cardíaca (R$ 243.178.666,00) e nas
doenças cerebrovasculares (R$ 213.106.345,00). O custo médio de cada
internação variou de R$ 208,00 (hipertensão arterial sistêmica) até
R$ 1.915,00 (doença isquêmica do coração).
No Estado de São Paulo, a média de permanência
hospitalar por doenças tabaco-relacionadas foi de 6,6 dias, variando
de 3,4 dias (asma) a 24,1 dias (tuberculose respiratória).
Tabela 2
Número
de internações hospitalares no Sistema Único de Saúde, custos
totais, custo médio (CM) de cada internação e média de permanência
hospitalar (MPH) em dias, segundo as principais doenças
tabaco-relacionadas, Estado de São Paulo, 1998-2004.
|
Doenças
tabaco-relacionadas
|
Internações
|
Custos
totais (R$)
|
CM(R$)
|
MPH
|
|
Câncer
|
180.185
|
129.846.175
|
721
|
6,5
|
|
Hipertensão
arterial sistêmica
|
157.136
|
32.679.322
|
208
|
4,3
|
|
Doenças isquêmicas
do coração
|
330.878
|
633.687.138
|
1.915
|
6,6
|
|
Insuficiência
cardíaca
|
402.540
|
243.178.666
|
604
|
6,3
|
|
Doenças
cerebrovasculares
|
255.245
|
213.106.345
|
835
|
9,9
|
|
Outras doenças
vasculares
|
118.061
|
86.286.754
|
731
|
8,1
|
|
Influenza [gripe]
|
18.582
|
7.511.920
|
404
|
6,0
|
|
Tuberculose
respiratória
|
49.250
|
39.382.562
|
800
|
24,1
|
|
Doença pulmonar
obstrutiva crônica
|
188.647
|
83.454.501
|
442
|
6,4
|
|
Asma
|
260.164
|
79.571.215
|
306
|
3,4
|
|
Úlcera gástrica
e duodenal
|
68.668
|
25.503.649
|
371
|
4,8
|
|
Nefrites
|
178.231
|
42.187.649
|
237
|
4,6
|
|
Total
tabaco-relacionadas
|
2.207.587
|
1.616.395.895
|
732
|
6,6
|
A tabela 3 mostra que na Capital paulista as
principais internações foram devidas às doenças isquêmicas do
coração (81.556), insuficiência cardíaca (53.690) e doenças
cerebrovasculares (48.583). Os custos mais elevados concentraram-se
nas doenças isquêmicas do coração (R$ 216.221.622,00), nas doenças
cerebrovasculares (R$ 64.937.947,00) e na insuficiência cardíaca (R$
47.983.666,00). O custo médio de cada internação variou de R$
348,00 (asma) até R$ 2.651,00 (doença isquêmica do coração).
Na Capital do Estado, a média de permanência
hospitalar por doenças tabaco-relacionadas foi de 9,5 dias, variando
de 3,7 dias (asma) a 23,4 dias (tuberculose respiratória).
Tabela 3
Número
de internações hospitalares no Sistema Único de Saúde, custos
totais, custo médio (CM) de cada internação e média de permanência
hospitalar (MPH) em dias, segundo as principais doenças
tabaco-relacionadas, Capital do Estado de São Paulo, 1998-2004.
|
Doenças
tabaco-relacionadas
|
Internações
|
Custos
totais (R$)
|
CM(R$)
|
MPH
|
|
Câncer
|
50.891
|
40.976.632
|
805
|
7,2
|
|
Hipertensão arterial
sistêmica
|
27.254
|
11.594.238
|
425
|
6,8
|
|
Doenças isquêmicas do
coração
|
81.556
|
216.221.622
|
2.651
|
8,1
|
|
Insuficiência cardíaca
|
53.690
|
47.983.666
|
894
|
9,6
|
|
Doenças
cerebrovasculares
|
48.583
|
64.937.947
|
1.337
|
16,5
|
|
Outras doenças
vasculares
|
21.915
|
22.810.619
|
1.041
|
11,6
|
|
Influenza [gripe]
|
3.813
|
1.660.315
|
435
|
8,7
|
|
Tuberculose respiratória
|
16.824
|
13.324.696
|
792
|
23,4
|
|
Doença pulmonar
obstrutiva crônica
|
17.806
|
12.350.518
|
694
|
11,6
|
|
Asma
|
41.745
|
14.523.042
|
348
|
3,7
|
|
Úlcera gástrica e
duodenal
|
9.447
|
5.721.094
|
606
|
5,7
|
|
Nefrites
|
22.520
|
8.360.546
|
371
|
6,5
|
|
Total tabaco-relacionadas
|
396.044
|
460.464.934
|
1.163
|
9,5
|
No SUS, em relação ao total de custos de
internação por todas as causas, as doenças tabaco-relacionadas
representaram aproximadamente 20% (figura), tanto no Brasil como no
Estado de São Paulo e na Capital paulista. Já em relação ao número
total de internações no SUS (figura), a porcentagem foi maior no
Brasil (16,2%), intermediária no Estado (14,5%) e menor na Capital
(12,3%).

Figura –
Número relativo de internações hospitalares no Sistema Único de Saúde
e custos relativos das principais doenças tabaco-relacionadas,
comparados com o total de internações e custos, Brasil, Estado de São
Paulo e Capital do Estado, 1998-2004.
Discussão
Embora na Capital de São Paulo a porcentagem
por doenças tabaco-relacionadas tenha sido a menor entre as três
esferas administrativas, os custos relativos foram praticamente os
mesmos. Isto pode, em parte, ser explicado pela maior média de permanência
hospitalar na Capital.
Por que as menores porcentagens de internações
por doenças tabaco-relacionadas estão no Estado de São Paulo e na
Capital? Uma possível versão seria uma maior freqüência de outras
doenças no total de internações do SUS. Ocorre também que, em relação
ao País como um todo, a porcentagem da população com assistência
suplementar à saúde é uma das mais elevadas, fazendo supor que
parte das pessoas com doenças tabaco-relacionadas tenha sido
internada fora da rede SUS2, 4.
De outro lado, destacam-se as doenças
cardiovasculares (hipertensão arterial sistêmica, doenças isquêmicas
do coração, insuficiência cardíaca, doenças cerebrovasculares e
outras doenças vasculares) que foram as mais freqüentes e as de
maior custo nas três esferas administrativas. No seu conjunto,
representaram, em média, 54,3% do total de internações e 73,0% do
total de custos.
Essas doenças estão relacionadas a vários
fatores de risco (sedentarismo, alteração do colesterol, álcool,
diabetes, hipertensão arterial sistêmica e estresse, entre outros).
Parte delas é causada pelo fator de risco tabagismo.
Além da hipertensão arterial sistêmica,
outras doenças de baixo custo foram: asma, úlcera gástrica e
duodenal, nefrites, por se tratar de doenças de menor complexidade.
As médias de permanência hospitalar das doenças
tabaco-relacionadas no Estado de São Paulo (6,6 dias) e na Capital
(9,5 dias) foram, respectivamente, 12% e 61% maiores que a do Brasil
(5,9 dias), fato que carece de explicação.
A tuberculose respiratória apresentou médias
de permanência hospitalar ao redor de 24 dias – possivelmente,
casos mais graves e complicados, porque o tratamento da tuberculose não
complicado é essencialmente ambulatorial. A asma, porém, apresentou
médias de permanência em torno de três dias, cujo período de
tempo, provavelmente, foi suficiente para tratar a crise aguda.
Diminuindo-se ou eliminando-se a exposição
das pessoas ao fator de risco tabagismo é possível reduzir-se as
doenças tabaco-relacionadas e, conseqüentemente, as internações e
respectivos custos hospitalares.
Referências
bibliográficas
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Universidade Estadual de São Paulo). Cigarros podem aumentar o risco
do mal de Alzheimer e demência senil atinge mais os fumantes. Disponível
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Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD; 1998.
3.
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Disponível em: http://www.inca.gov.br. [Acesso em 2005 jul].
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cobertura (F15): população beneficiária de planos e seguros de saúde.
Disponível em: http://www.datasus.gov.br. [Acesso em 2005 ago].
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Estado da Saúde-Centro de Vigilância Epidemiológica “Prof.
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Rosemberg J. Nicotina: droga universal. Rio de Janeiro: Instituto
Nacional de Câncer, Ministério da Saúde; 2003.
7. Rotary Club Indaial. Corrida Rústica Contra o
Fumo. Disponível em: http://www.rotaryindaial.org.br. [Acesso em 2005
jul].
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