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Módulo VI — Promoção
à saúde e o controle de populações de animais de estimação
Introdução
A interação entre seres
humanos e animais requer o desenvolvimento de atitudes conscientes
para que o equilíbrio biológico entre as diversas espécies seja
mantido. Principalmente se os animais passarem a formar os grupos
denominados de estimação, em que são instalados hábitos de maior
proximidade, conhecimentos particularizados e uma complementação de
interesses afetivos e psicológicos.
Os animais
de estimação representam uma significante parcela de espécimes
introduzidos no âmbito das relações humanas, e os cães e gatos são
sem dúvida o grande contingente de novos agregados aos grupos comunitários
pelas famílias que buscam mantê-los em suas residências ou em seu
meio ambiente.
A partir
desta opção, os interessados em conviver com cães e gatos assumem o
compromisso ético, com sua comunidade, de desenvolver e manter hábitos
e posturas de promoção e preservação da saúde, preservação do
meio ambiente e promoção da saúde e do bem-estar animal.
Este
compromisso pode parecer simples, se consideradas as questões de
alimentação, controle de mobilidade e estabelecimento de comandos básicos
para garantir o cumprimento das regras sociais de convivência em
grupos comunitários. Entretanto, a manutenção consistente na adoção
de uma postura que abrange uma responsabilidade jurídica e de
cuidados com abrigos, sustento, controle reprodutivo, prevenção de
doenças e de agravos diversos requer uma cultura, cujas bases
precisam ser estabelecidas com a participação de equipes
multidisciplinares de educadores, administradores públicos,
formadores de opinião, líderes comunitários, profissionais das áreas
da saúde, da segurança pública, representantes da sociedade civil
organizada (ONG e OSCIP, entre outras) e, sobretudo, dos próprios
interessados nesta convivência, que pode se revelar das mais
gratificantes.
Ao
incorporar diferentes espécies animais ao meio ambiente, de áreas
urbanas ou rurais, é sempre importante considerar a importância da
preservação da saúde da comunidade, o equilíbrio ecológico e
promoção da saúde e do bem-estar animal.
Promoção
em Saúde e Inter-relação com Populações de Animais de Estimação
Saúde pública
é a ciência e a arte de prevenir a doença prolongando a vida,
promovendo a saúde, a eficiência física e mental por meio de esforços
organizados da comunidade. Os fatores e as condições do ambiente físico,
biológico, sócio-cultural e econômico exercem marcada influência
sobre a saúde e, assim sendo, a mudança de atitude está diretamente
relacionada às mudanças no meio-ambiente1.
Portanto, a
implantação de programas com objetivos de promoção em saúde na área
de convivência e manutenção de animais de estimação (cães e
gatos) requer algumas considerações.
O controle
de populações de cães e gatos depende de atitudes críticas e
proativas constantes dos proprietários, o que merece especial ênfase
para mudanças de atitudes em crenças e valores antigos, que possam
considerar, por exemplo, a falta de supervisão na manutenção destes
animais como uma forma sadia ou normal1.
Aspectos
como oferta de alimentos com composição nutricional recomendada para
cães e gatos, a limitação de territórios por onde possam atuar
livremente, a higiene ambiental e individual, a oferta de abrigos
seguros, o controle reprodutivo, a administração de imunógenos e
outros medicamentos para prevenção de doenças, a prevenção de
riscos de agravos, como mordeduras, arranhaduras, acidentes domésticos
ou de trânsito, precisam passar a fazer parte das condutas diárias
dos proprietários.
Para que
estes fatores sejam contemplados na relação ser humano e animais, é
necessário difundir conhecimentos, estimular e motivar a assunção
de posturas de propriedade, posse ou guarda responsável, obter
propostas alternativas para cada grupo comunitário considerado,
estimular e motivar a implantação daqueles factíveis.
Destas
orientações básicas depende a melhoria da qualidade de vida, a
manutenção do ambiente equilibrado e saudável, a preservação de
cada espécime inserido no dia-a-dia de proprietários responsáveis.
Contudo,
para apresentar e tornar lógica a prática da propriedade, posse ou
guarda responsável, também os profissionais atuantes nas diversas
esferas comprometidas nos quesitos apontados precisam ter claro suas
funções, sua capacitação e sua capacidade para o desempenho das
atividades educativas que compõem a promoção à saúde no controle
de populações de animais de estimação.
Esta
tarefa requer a interação de profissionais de diferentes formações,
pois cada participante tem uma preparação e a prática de ensinar,
de expressar idéias compatíveis com diferentes comunidades e
diferentes valores é uma arte e uma ciência, para as quais nem todos
têm habilidades inatas.
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Saber,
conhecimento e prática para a promoção da saúde são bases
de capacitação específica, que somente alguns dominam. |
Trabalhos divulgados
na literatura referem que a infância e a adolescência são fases
decisivas para a construção dos valores éticos, morais e de
comportamento. Os educadores formais desempenham um papel importante
na formação destes conceitos. Neste sentido, a educação para a saúde
e para a preservação ambiental deve se basear em estratégias que
instrumentalizam os indivíduo na busca de soluções para seus
problemas.
É preciso
ter sensibilidade para entender quais as prioridades estabelecidas
pelos diferentes grupos sociais, que nem sempre coincidem com
objetivos e metas estabelecidos à distância por profissionais
competentes, mas sem a vivência da realidade local.
Por
outro lado, muitas propostas podem ser idealizadas, sem que venham a
se concretizar, porque as políticas estabelecidas pelos gestores ou
as prerrogativas, competências e atribuições dos cargos públicos
deixaram de ser contemplados por seus ocupantes. A administração pública
oferece normas de atuação, de uso e de aplicação de verbas, de
competências legais, que precisam ser respeitadas pelos ocupantes de
cargos do funcionalismo público. Nesta esfera, em especial, as
determinações legais vigentes podem variar de cidade para cidade,
mas sempre estão interligadas às disposições estaduais e federal,
que tratam de cada assunto de atuação.
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Ninguém
é tão sábio, que não tenha nada a aprender, assim como
ninguém é tão ignorante, que não tenha nada a ensinar. |
O
planejamento compartilhado entre os diferentes atores públicos e
privados é de fundamental importância, independente da metodologia
operativa utilizada, sendo imprescindível que a previsão de recursos
e a possibilidade de execução de tarefas para cada um dos envolvidos
sejam factíveis, precisando ser todos os passos elaborados com
antecedência, garantindo que o entendimento, a aceitação e o
compromisso possam ser incorporados em atividades programáticas dos
diversos setores.
Os
profissionais da área da saúde pública precisam conhecer e praticar
os dispositivos que tratam das políticas públicas municipais;
precisam conhecer as prioridades estabelecidas pelos administradores,
a fim de oferecer propostas compatíveis para o aprimoramento dos
trabalhos e a melhoria da qualidade de vida da população. Ao
apresentar suas propostas de aperfeiçoamento de serviços, eles devem
identificar, compreender e determinar os conhecimentos e os valores da
equipe de trabalho, com a qual vai interagir. Todos devem saber quais
são e assumir as responsabilidades dos cargos que ocupam.
Da união
dos profissionais de saúde e dos profissionais da educação devem
ser obtidos conhecimentos sobre como a comunidade define e avalia os
problemas decorrentes da interação com animais de estimação. Pela
análise das experiências, do histórico das características
socioeconômicas da comunidade, estes profissionais vão poder
desenvolver programas de trabalho de promoção da saúde, a partir da
realidade constatada, das causas atribuídas aos fatores
predisponentes e determinantes de problemas identificados, de como é
considerado que seja possível contorná-los ou solucioná-los,
segundo crenças e conhecimentos dos habitantes locais. As bases técnicas
e científicas serão os fundamentos para aliar causas, efeitos e soluções
viáveis.
Sugestão de Tópicos
de um Programa de Promoção da Saúde e Inter-relação com Populações
de Cães e Gato
A
identificação dos assuntos a serem abordados com a população e,
especificamente, com grupos definidos da comunidade é a fase
fundamental para a elaboração de um programa de trabalho. Este
programa de trabalho deve ter definido, como em todos os demais,
objetivos claros e precisos, as metas, os métodos de trabalho, o período
de tempo de implementação e as unidades de avaliação, a fim de que
sejam identificadas as necessidades de alteração de propostas, de
adequação de métodos e de obtenção de resultados.
Dentre os principais tópicos de um Programa de Promoção da
Saúde e Interrelação com Populações de Cães e Gatos podem ser
arrolados e associados:
a.
A
comunidade e o meio ambiente – Considerar aspectos de como a intervenção em
determinada área ambiental pode ser profícua ou deletéria.
i.
Desmatamento, queimadas, ocupação desordenada de áreas,
dispersão de resíduos domésticos e comerciais, acúmulo de entulho
e outros objetos inservíveis (relacionar com dispersão ou extinção
de espécies, favorecimento do ingresso de espécies não domésticas
no ambiente urbano e domiciliar, atos de vandalismo, quebra de
vidros).
ii.
Uso racional de recursos hídricos (poupar água, utilizar água
não poluída, reuso da água, uso de aqüíferos subterrâneos).
iii.
Destinação e tratamento de resíduos; coleta seletiva
(controlar a capacidade suportiva do meio ambiente para evitar a
presença de cães e gatos sem controle). Proliferação de animais
incômodos e de animais transmissores de doenças (integração com órgãos
e entidades ou associações oficiais e particulares para planejamento
de uso e ocupação, construção de imóveis, arborização de áreas
públicas, projetos paisagísticos públicos e particulares).
iv.
Eliminação de criadouros de insetos e de animais peçonhentos
(remoção de entulho, vazão de água parada, remoção de material
orgânico em decomposição, evitar criadouros de escorpiões,
abelhas, pulgas, carrapatos, drenagem de terrenos, destinação de
materiais inservíveis).
v.
Poluição de águas de rios, lagos, nascentes (destinação
adequada de materiais perigosos como pilhas, baterias de celulares,
produtos químicos e orgânicos e outros de difícil decomposição).
vi.
Moradias e o peridomicílio – Higiene ambiental, salubridade
(tampas nas caixas d’água, criações animais de interesse econômico
(ADIE) distantes do domicílio/uso e/ou fornecimento de produtos de
origem animal para alimentação, canalização de esgoto, controle de
ectoparasitas, criação de cães e gatos conforme a capacidade
ambiental, coleta de dejetos e demais resíduos).
vii.
Uso e ocupação desordenada de Áreas de Preservação
Permanente (APP), encostas, áreas improdutivas.
b.
A
saúde como um bem particular e comum à comunidade.
i.
Preservação da saúde – Prevenção de doenças e não seu
tratamento, por terem sido identificadas em determinado meio ou em
determinada população.
ii.
Importância de administração regular de vacinas.
iii.
Higiene pessoal e ambiental (fatores que favorecem a incidência
de doenças, zoonoses e não zoonoses);
iv.
Controle de animais de estimação – Responsabilidades nos
casos de agressões – Observação clínica, atendimento ao
agredido.
c.
Propriedade,
posse ou guarda responsável de cães e gatos
i.
Decidir conscientemente para ter um animal de estimação.
ii.
Definir os cuidados e quem vai se responsabilizar por eles (são
vários e precisam ser consistentes e permanentes).
iii.
Respeitar as necessidades básicas de cada espécie (espaço,
exercícios, brincadeiras, alimentação, prevenção de incômodos;
escovação, corte de unhas, limpeza de orelhas).
iv.
Implantar métodos de treinamento, adestramento e
condicionamento, conforme o uso (companhia, guarda).
v.
Prevenir acidentes – Ataques físicos ou sustos (latidos e
rosnados), atropelamentos, acidentes de trânsito, quedas.
vi.
Controlar a reprodução – Opção por esterilização
definitiva ou outro método.
vii.
Fornecer os filhotes nascidos com responsabilidade – Para
quem cuide e mantenha as ações de propriedade, posse ou guarda
responsável.
viii.
Decidir pela eutanásia – Tópico pouco considerado, mas que
é opção do dono, quando indicada.
ix.
Impedir o livre acesso às ruas e logradouros públicos.
x.
Responsabilidade do proprietário, quando do recolhimento do
animal por serviços públicos municipais.
d.
As
responsabilidades do profissional (médico veterinário, entre outros)
do serviço público
i.
Cumprir e fazer cumprir as leis (inerente ao cargo).
ii.
Implantar e/ou aperfeiçoar programas de controle de zoonoses,
por meio de ações preventivas – Avaliar fatores de risco,
controlar focos de incidência, manter sistemas efetivos de vigilância,
integrar equipes de trabalho com diferentes formações.
iii.
Implantar e/ou aperfeiçoar programas de registro e de concessão
de licenças a proprietários de animais.
iv.
Identificar necessidades da comunidade para controle animal e
viabilizar o planejamento multidisciplinar para implantação de ações
complementares dos programas tradicionais.
v.
Elaborar Procedimentos de Padrão Operacional (PPO) em sua área
de competência.
vi.
Capacitar as equipes de trabalho, em cada segmento de atuação
– Interação com a comunidade, interação com o grupo de trabalho,
manejo de animais de diferentes espécies e portes, direitos e
deveres, controle de saúde (exames periódicos, tratamentos
preventivos).
vii.
Identificar as habilidades dos funcionários conforme a dedicação
e o empenho com o trabalho – Valorização (cursos de aperfeiçoamento,
de extensão), programações de lazer e punição (afastamento,
recolocação, ou outras formas que tenham significado de desagrado),
aperfeiçoamento e integração da equipe (cursos e práticas contínuas).
viii.
Participar ativamente de Conselhos Municipais de Saúde, do
Meio Ambiente e/ou outros afins (recomendação).
ix.
Participar e colaborar com equipes multiprofissionais para o
desenvolvimento de programas educativos.
x.
Utilizar com parcimônia e propriedade recursos orçamentários,
financeiros e materiais para maior eficiência.
xi.
Avaliar e desenvolver programas e métodos compatíveis com a
promoção da saúde, aliada à preservação do meio ambiente e da
promoção da saúde e do bem-estar animal.
xii.
Supervisionar a propriedade, posse ou guarda responsável de cães
e gatos.
xiii.
Implantar ou propor a implantação do registro e concessão de
licenças aos proprietários de animais.
Lembrar que
o conteúdo acima deve servir como orientação a ser seguida,
mas que a informação gerada deve ser adequada à população
alvo nos seguintes tópicos:
·
Conteúdo
limitado:
dar prioridade ao que a população não sabe ou sabe de forma
incorreta.
·
Ressaltar
os pontos
que precisam ser relembrados.
·
Linguagem
adequada.
·
Informação
completa
sobre o tema abordado. Para isto você deve elaborar um texto
respondendo às seguintes questões: O que fazer? Como? Quando? Onde?
Até quando? A quem procurar em caso de dúvida?
·
Trabalhar
com mais de um recurso audiovisual e/ou método educativo.
Metodologia
A
metodologia a ser escolhida deve ter por base os preceitos da
Pedagogia. O importante é que sejam previstas técnicas
participativas direcionadas à população alvo, oferecendo condições
para que a comunidade se aproprie do conhecimento e possa contribuir
para transformar sua realidade.
Cada
segmento social das diferentes comunidades traz consigo comportamentos
e práticas com relação à saúde e ao meio ambiente oriundos da família,
da mídia e do grupo social em que se inserem.
As medidas
educacionais devem ter por objetivo inicial a conscientização da
população, preparando-a para uma posterior mudança de
comportamento; o desenvolvimento de um programa de longo prazo se faz
necessário a fim de garantir eficiência, principalmente ao
restringir comportamentos que levem a grande rotatividade de animais
domésticos. Este é o fator para o desenvolvimento de hábitos e
posturas que vão garantir a evolução etária
da população animal, avaliada pelo menor número de abandonos,
diminuição de susceptíveis jovens a diversas doenças
infectocontagiosas e diminuição da incidência de zoonoses na população
humana.
Colaboração
Profª Drª Sônia Regina Pinheiro – Departamento de
Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, Faculdade de
Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo.
Bibliografia
1.
SANTOS, M. B. Toxocaríase: avaliação do processo
ensino-aprendizagem de recursos pedagógicos aplicados a crianças do
ensino fundamental. [dissertação]. São Paulo: Faculdade de Medicina
Veterinária e Zootecnia; 2003. 126 p.
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