Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272

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Novembro, 2005   Ano 2   Número 23                                                                     retorna
Panorama das ações de prevenção às DST/Aids voltadas para os adolescentes, desenvolvidas pelos Programas Municipais de DST/Aids – Estado de São Paulo – setembro de 2004

Teo Weingrill Araujo, Gabriela Junqueira Calazans 
Coordenação Estadual de DST/Aids-SP – Gerência de Prevenção


Em setembro de 2004, a Coordenação Estadual de DST/Aids – SP elaborou um questionário com o objetivo de traçar um panorama das experiências de prevenção as DST/Aids dirigidas a adolescentes, desenvolvidas no Estado de São Paulo. Com a colaboração das Direções Regionais de Saúde (DIR), o questionário foi repassado para todos os Programas Municipais de DST/Aids com recursos do PAM (Plano de Ações e Metas) e para outras instituições/ONGs que realizassem ações de prevenção com adolescentes. Dos 142 municípios, 68 (46%) responderam ao questionário. Desses, apenas três (4,5%) não desenvolvem ações de prevenção com essa população. Neste texto, apresentamos e discutimos os resultados obtidos, considerando as estratégias adotadas pelos municípios para desenvolver essas ações. 

Estratégias de prevenção  

A tabela 1 mostra que a distribuição de preservativos e a realização de palestras são as estratégias de prevenção mais adotadas pelos municípios. A realização de oficinas, a produção de material educativo e a capacitação de professores também são estratégias adotadas por um número significativo deles.

Tabela 1
Ações de prevenção as DST/Aids desenvolvidas pelos municípios do Estado de São Paulo
setembro de 2004[1].

Ações desenvolvidas

Número de municípios
que desenvolvem a ação
%

Palestras

 

 

   Palestras em escolas

55

81

   Palestras em outras instituições/locais

45

66

Oficinas

 

 

   Realização de oficinas em escolas

32

47

   Realização de oficinas em outras instituições/locais

25

37

Insumos

 

 

   Distribuição de preservativos

54

79

   Produção de material educativo

40

59

Capacitações

 

 

   Capacitação de profissionais de saúde que atendem adolescentes

18

26

   Capacitação de professores

31

46

   Capacitação de outros profissionais

9

13

   Capacitação de adolescentes multiplicadores para desenvolverem ações dentro da escola

15

22

    Capacitação de adolescentes multiplicadores para desenvolverem ações em outros locais/instituições

10

15

Outras

10

15

[1] Cada município podia dar mais do que uma resposta.

1. Palestras

Dos 68 municípios, 55 (81%) realizam palestras nas escolas e 45 (66%) em outros locais/instituições. A realização de palestras pode ser considerada uma estratégia “clássica” para a prevenção das DST/Aids entre os adolescentes. Nessa estratégia, um especialista da área apresenta informações sobre os modos de transmissão das doenças e sobre os métodos existentes para preveni-las. O público, por sua vez, recebe as informações do especialista e procura esclarecer, através de perguntas, possíveis dúvidas.

As críticas a essa estratégia incluem a defesa de que a aprendizagem é mais efetiva quando o conhecimento é construído pelo próprio aprendiz, a partir de suas vivências. Aponta-se também que a palestra é uma estratégia muito pontual. Nessa perspectiva, defende-se que as pessoas não mudam o comportamento apenas por receberem determinadas informações, e que a prevenção das DST/Aids só pode ocorrer se houver mudança de hábitos, atitudes e crenças e que essas mudanças não podem ser impostas.

Entretanto, ao escolher as estratégias de prevenção, necessitamos considerar as características da instituição e o contexto em que as ações se inserem. Por exemplo, as palestras podem ser um recurso útil para desenvolver ações de prevenção em uma instituição quando não há profissionais disponíveis ou dispostos a realizá-las através de oficinas ou profissionais de saúde com disponibilidade para realizar ações contínuas nessa instituição. Através delas pode-se aprofundar o contato com a instituição e sensibilizá-la para desenvolver ações de DST/Aids para os adolescentes.

2. Oficinas

Dos 68 municípios, 32 (47%) realizam oficinas em escolas e 25 (37%) as realizam em outras instituições/locais.

Em oficinas costuma-se trabalhar com pequenos grupos que se reúnem em determinado número de encontros periódicos. Geralmente, cada encontro envolve, além de discussões sobre um tema, atividades lúdicas e dinâmicas de grupo relacionadas a esse tema. Busca-se, além da transmissão de informações sobre as doenças e formas de preveni-las, discutir hábitos, atitudes, dúvidas e temores relacionados à sexualidade e ao uso de drogas.

Para conduzir as oficinas, o profissional, além de informações técnicas, tem de estar aberto e disponível para escutar os conteúdos que os adolescentes apresentam. Deve-se guiar pela idéia de que seu papel principal é propiciar condições para que os adolescentes se expressem de maneira livre. Isso significa fazer um esforço constante para conseguir “colocar em suspensão” determinados valores e preconceitos pessoais. A partir dessa perspectiva e por meio de discussões sobre temas muito amplos, a adoção de práticas de cuidado consigo acontece de maneira lenta e gradual.

3. Distribuição de preservativos

Difundir a idéia de sexo seguro pressupõe acesso aos preservativos. A partir da tabela 1, percebemos que 79% dos municípios adotam a distribuição como uma estratégia de prevenção, que ocorre em três contextos: a) em palestras, eventos, festas, datas comemorativas etc., b) nos serviços de saúde, c) nas escolas (dados não apresentados).

3.a) A distribuição de preservativos em eventos atinge um grande número de pessoas. Entretanto, é uma ação pontual, que não promove a ampliação do acesso a esse insumo.

3.b) A distribuição de preservativo nos serviços de saúde aposta na autonomia do adolescente de buscar proteção. Ao mesmo tempo, promove a sua inclusão na rede de atenção à saúde. Entretanto, algumas medidas precisam ser adotadas para que essa estratégia seja eficaz. É preciso sensibilizar e capacitar os profissionais da rede para que acolham o adolescente. Por exemplo, alguns serviços de saúde exigem que os pacientes menores de idade só sejam atendidos se acompanhados dos pais, o que pode constranger o adolescente quando recebem orientações ou preservativos.

3.c) A distribuição de preservativos nas escolas ganhou novo impulso com o lançamento do programa “Saúde e Prevenção nas Escolas”, da Coordenação Nacional de DST/Aids. A vantagem dessa estratégia é garantir que o preservativo esteja em um local que concentre muitos adolescentes. Além disso, fortalece as ações de prevenção e educação para a saúde, desenvolvidas pelas escolas. A distribuição de preservativos na escola complementa as ações que visam promover o acesso dos adolescentes aos serviços de saúde já que há muitos que não freqüentam mais as escolas.

4. Capacitações

Entre as estratégias adotadas pelos municípios, 46% adotam a capacitação de professores, 26% de profissionais de saúde e 22% capacitações para adolescentes multiplicadores.

4.a) Capacitação de profissionais de escolas e de outras instituições que atendem adolescentes

É preciso considerar que os temas relacionados às DST/Aids são delicados e que o profissional precisa deparar-se com questões pessoais, preconceitos, e, ao mesmo tempo, encaminhar assuntos que serão trazidos pelos adolescentes. Portanto, mais uma vez, apontamos a importância de realizar capacitações contínuas para esses profissionais, que incluam discussões periódicas sobre as ações que estão sendo desenvolvidas.

4.b) Capacitação de profissionais de saúde

A capacitação dos profissionais de saúde para desenvolverem ações de prevenção às DST/Aids também precisa ser contínua. Lidar com temas como sexualidade e uso de drogas exige do profissional uma reflexão constante sobre o próprio trabalho. Por isso, precisamos garantir espaços periódicos de interlocução, discussão de casos e acolhimento para os profissionais que desenvolvem as ações de prevenção. É preciso compreender que capacitar um profissional não significa apenas organizar eventos, mas também acompanhar de perto a maneira como esses trabalhos são desenvolvidos.

Devemos levar em consideração que promover o acesso dos adolescentes aos serviços de saúde é uma das principais maneiras de prevenir as DST/Aids, de promover o acesso à testagem e à vacinação contra a hepatite B e o acesso ao tratamento em abordagem sindrômica das DST[2]. Para isso, é necessário que os profissionais dos serviços de saúde estejam preparados para receber o adolescente, para acolhê-lo, para fornecer-lhe preservativos e outros insumos de prevenção e para orientá-lo. Os profissionais de saúde dos serviços de atenção básica são os que estão mais próximos dos locais de residência, estudo e trabalho dos adolescentes. Nesse sentido, o ideal é que eles assumam, em parceria com outras instituições como a escola, as associações de bairro e as igrejas, a responsabilidade pelas ações diretas de prevenção às DST/Aids.

4.c) Capacitação de adolescentes multiplicadores

A idéia subjacente à proposta de trabalhar com adolescentes multiplicadores é a de que o jovem, por viver questões e dificuldades “próprias da adolescência”, é capaz de compreender os outros adolescentes. Para adotar esta estratégia é necessário:

1. Mapear os locais em que os adolescentes possam atuar e as instituições governamentais e não-governamentais que possam ser parceiras nessa ação. Procurar espaços em que as atividades possam ser desenvolvidas. Decidir quais adolescentes serão os multiplicadores.

2. Decidir de que maneira será estabelecido o vínculo com os adolescentes multiplicadores: serão remunerados? No caso dos adolescentes que freqüentam a escola, a carga horária do trabalho será compatível com a dos estudos? Como pedir autorização dos pais, no caso de adolescentes menores de idade?

3. Oferecer capacitações, aulas, grupos de estudo e estabelecer uma rotina de supervisões periódicas para os adolescentes.

5. Produção de materiais educativos

Quarenta municípios (59%) produzem materiais educativos próprios voltados para os adolescentes ou para os profissionais que trabalham com essa população. Os materiais educativos podem ser uma ferramenta interessante na execução das ações de prevenção, já que possibilitam a transmissão de informações de maneira correta e simples.

Bibliografia recomendada

  1. Ministério da Saúde. Programa Nacional de DST/Aids. Manual do Multiplicador Adolescente. Brasília: Ministério da Saúde, 2003.
  2. Materiais do Projeto “Prevenção Também se Ensina”, disponíveis em todas as Escolas Estaduais do Estado de São Paulo.
  3. “Antes Durante e Depois: Gravidez na Adolescência”. Jogo produzido pelo GTPOS. Para maiores esclarecimentos, ligue para GTPOS: (011) 3801-3691.
  4. Protagonismo Juvenil: caderno de atividades. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
  5. Adolescentes Promotores de Saúde: uma metodologia para capacitação. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
  6. Adolescentes Fazendo Juntos: manual do facilitador. Brasília: Governo do Distrito Federal, 2003.
  7. Adolescentes Pensando Juntos: manual do facilitador. Brasília: Governo do Distrito Federal, 2003.

[2] Tratamento imediato das DST a partir da identificação dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente.


Coordenadoria de Controle de Doenças