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todo o mundo foram mostradas as imagens desoladoras dos efeitos de um
desastre natural sobre uma determinada população. Em 26 de agosto, o
furacão Katrina atingiu vários estados norte-americanos, deixando
mortos, feridos e grande número de desabrigados. A cidade apontada
como a mais atingida foi Nova Orleans, considerada reduto histórico
da música dos Estados Unidos. Razões geográficas tornaram o fenômeno
mais grave – a cidade encontra-se abaixo do nível do rio Mississipi
e do lago Pontchartrain.
As
implicações deste fenômeno para a saúde podem ser codificadas
no capítulo das Causas Externas
da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados à Saúde, Décima Revisão1 (CID 10), na
categoria de Exposição às forças
da natureza. As repercussões mais imediatas sobre a saúde das
populações atingidas são as lesões, que podem ser fatais ou não.
Depois, havendo inundações, problemas com o suprimento de água e/ou
luz e, no caso de desabrigados alojados em condições geralmente precárias,
o temor é a ocorrência de epidemias.
Desse modo, o Grupo Técnico de
Prevenção de Acidentes e Violências (GTPAV), em conjunto com o
Programa de Epidemiologia Aplicada aos Serviços do Sistema Único de
Saúde (EPI SUS SP), do Centro de Vigilância Epidemiológica,
elaborou uma breve revisão sobre o tema, com o objetivo de divulgar
alguns conhecimentos acerca das situações de emergência, que possam
ser úteis para os profissionais de saúde. Todas as informações
aqui contidas têm como base as informações disponibilizadas pelo
Centers for Disease Control and Prevention (CDC)2 e pela
American Public Health Association3, dos Estados Unidos.
Definindo desastre: um
desastre pode ser definido como uma emergência de tal severidade e
magnitude que a resultante combinação de mortes, lesões, doenças e
danos ao patrimônio não pode ser efetivamente resolvida com os
procedimentos e recursos de rotina. Estes eventos colocam a saúde pública
frente a um número de problemas singulares que não são os comumente
encontrados nos serviços de emergência estabelecidos. Eles podem ser
decorrentes de fenômenos naturais, como terremotos, furacões e
inundações. Particularmente, os furacões são fenômenos previsíveis,
sendo preconizadas evacuações em massa da população sob risco a
partir da Categoria 3 (ventos de cerca de 200 quilômetros por hora,
geralmente acompanhados de grande quantidade de chuva). Mas também
podem ser conseqüência de acidentes como explosões em usinas
radioativas, entre outros.
Os sistemas de vigilância: a epidemiologia deve ser
usada para investigar as conseqüências dos desastres para a saúde pública.
Dentro disso, uma das suas principais atribuições é o
estabelecimento de novos sistemas ou a manutenção dos sistemas de
vigilância já existentes. Mais do que nunca é necessário monitorar
e investigar os efeitos do desastre, detectando o mais precocemente
possível a ocorrência de lesões e doenças ou mesmo observar mudanças
nos padrões anteriores. Dados devem ser coletados rapidamente, mesmo
em situações adversas. A análise também deve ser rápida para que
seja possível instituir prontamente as medidas de controle indicadas.
A vigilância de lesões deve ser implantada para planejar os recursos
a serem disponibilizados, tais como instalação ou não de hospitais
de campo, recrutamento de profissionais de saúde.
Prevenção de lesões: o risco de lesões numa situação de desastre é
grande. Certamente, a prevenção primária é a evacuação da área
atingida, sempre que possível, quando se tratar de um fenômeno
previsível. Cabe ressaltar que existe tecnologia disponível para
previsão de alguns desses eventos ou para diminuição de possíveis
danos dos não previsíveis (por exemplo, edificações mais
resistentes a terremotos). Posteriormente, especialmente na volta para
casa ou para os profissionais de resgate ou saúde, o uso de
equipamentos de proteção, tais como botas, luvas e roupas
apropriadas deve ser indicado. O manuseio cuidadoso de instalações
elétricas que podem estar danificadas deve ser uma preocupação
compartilhada por todos. No caso de inundações, as pessoas podem
estar caminhando sem saber sobre cacos de vidros, fragmentos de metais
e fios elétricos. No entanto, esta medida é por vezes difícil de
executar, em se tratando de países com menos recursos ou quando as
pessoas perderam todos os seus pertences. A instalação de hospitais
de campo é um recurso muitas vezes necessário. Por ocasião do
Tsunami, na Ásia, eles foram fundamentais na redução do número de
mortes.
Epidemias: embora o temor seja grande, de um
modo geral não têm sido observadas grandes epidemias no rastro de
desastres naturais, em países desenvolvidos. Habitualmente, os surtos
que ocorrem após os desastres são, em geral, das mesmas doenças já
existentes na área afetada. Por isso, é importante que se tenha
previamente um bom quadro da situação epidemiológica das doenças
naquele local. Quando os sistemas de água e de esgoto ficam
prejudicados devido ao desastre, surtos de doenças infecciosas podem
ocorrer devido à dificuldade em se manter os cuidados de higiene. Os
maiores riscos estão relacionados a doenças de transmissão hídrica,
que podem ser facilmente disseminadas, dado o contato constante com as
águas de enchentes e consumo de água contaminada, quando os sistemas
de água e esgoto foram danificados. O Vibrio
vulnificus, que costuma ser encontrado em infecções de feridas,
gastroenterites e síndromes de septicemia primária, pode ser
encontrado nas águas marinhas que inundam as cidades em grandes
desastres. Além desse fato, há outras tantas doenças de transmissão
hídricas que podem causar séria morbidade e/ou mortalidade, como as
diarréias: cólera, febre tifóide e hepatite A, consideradas
controladas em países desenvolvidos, mas que podem desencadear surtos
nessa situação. Como medidas de prevenção e controle são
indicadas a fervura da água ou a sua higienização com hipoclorito
de sódio ou outros saneantes. Em nosso meio, a ocorrência de
epidemia de leptospirose é uma possibilidade que deve ser
considerada. É importante lembrar que as aglomerações em
alojamentos de desabrigados pode favorecer a ocorrência de casos de
doenças respiratórias.
Vacinas: também a indicação de vacinas deve variar com as
características epidemiológicas de cada local. No caso da população
atingida pelo Katrina, as vacinas indicadas pelo CDC são a antitetânica,
para população geral, e a hepatite B, para aqueles indivíduos
envolvidos com cuidados diretos aos pacientes. Não está sendo
indicada vacinação para hepatite A, baseado em experiências
anteriores da não ocorrência de surtos deste agravo após outros
furacões nos EUA. Por outro lado, pode ser uma hipótese futura,
porque há possibilidade de surto, visto que sua transmissão ocorre
por meio de contaminação fecal-oral, de água e alimentos
contaminados, além da precária higienização das mãos devido à própria
situação pós-catástrofe, comumente visto nas populações
afetadas. Vacinas contra febre tifóide, cólera, doenças meningocócicas
e raiva não estão indicadas pelo CDC de forma preventiva.
Corpos em
decomposição: nas situações de
desastres é comum a ocorrência de muitas mortes. O risco de propagação
de doenças relacionadas aos corpos em decomposição sempre é uma
questão levantada pelo público e profissionais de saúde nestas
situações, uma vez que geralmente o cuidado aos vivos é priorizado.
Publicação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) sobre o
tema estabelece que, quando as mortes são decorrentes de desastres,
os corpos são pouco prováveis como fonte de infecção para grandes
epidemias4. Mas os corpos não podem nem devem ser
esquecidos, primeiramente pelo fato de que todo ser humano tem o
direito de ser cuidado e respeitado, mesmo após a morte.
Certamente, vários aspectos importantes do problema não foram
abordados, tais como os riscos ambientais e à saúde mental dos
sobreviventes. O artigo buscou chamar atenção para um problema que o
senso comum considera haver pouca probabilidade de acontecer em nosso
País, mas que necessita ser pensado e planejado. Por fim, um desastre
é algo muito diferente da rotina, bastante complexo, bem mais que um
evento de grande magnitude. Por afetar fortemente a vida das pessoas,
elas têm de lidar com medos, frustrações, mudanças e incertezas.
É importante ser ágil e eficiente na ajuda, mas também ser
compreensivo e solidário.
Referências:
-
OMS - Organização Mundial da Saúde.
Classificação Estatística
Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde –
10ª Revisão. Centro Colaborador da Organização
Mundial da Saúde para a Classificação de Doenças em Português,
São Paulo, 1995.
-
Centers for Disease Control and
Prevention. [Acesso em 13/9/2005].
Disponível em: http://www.bt.cdc.gov/disasters/hurricanes/index.asp
-
American Public Health Association.
[Acesso em 13/9/2005]. Disponível
em: http://www.apha.org/preparedness/Katrina_relief1.htm
-
Pan American Health Organization. Management of Dead Bodies in Disaster Situations. [Acesso em
13/9/2005]. Disponível
em:
http://www.paho.org/english/dd/ped/ManejoCadaveres.htm
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