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A partir do ano de 1996, o perfil epidemiológico da raiva no
Estado de São Paulo passou por uma significativa alteração, como
conseqüência do Programa Nacional de Profilaxia da Raiva, implantado
nacionalmente em 1973, do trabalho da Comissão Estadual de Controle
da Raiva, estabelecido em 1975 no Estado de São Paulo, e da participação
crescente dos municípios. Esta mudança no perfil epidemiológico,
com diminuição do número de casos de raiva canina e felina e
aumento dos casos em quirópteros, fez com que os pesquisadores e
profissionais da área da saúde tivessem um novo olhar sobre a raiva,
zoonose tão antiga e que ainda nos dias de hoje é tão importante
para a saúde pública, apesar dos crescentes avanços no seu
controle, profilaxia e, até mesmo, tratamento.
Ao controlar a raiva canina e felina, São Paulo
atingiu um “status” de país desenvolvido, no qual a problemática
da raiva recai sobre as espécies silvestres das Ordens Carnivora
e Chiroptera, que são importantes reservatórios do vírus rábico
em todo o mundo.
Em relação aos morcegos, sabe-se que o Brasil possui cerca
de 140 espécies das 1.000 conhecidas no mundo, sendo 3 hematófagas,
87 insetívoras, 49 frugívoras e nectarívoras e 5 carnívoras. Estas
espécies representam cerca de 30% dos mamíferos existentes no
Brasil. Elas estão distribuídas nas cinco regiões geopolíticas do
território nacional e possuem uma alta diversidade.
No Estado de São Paulo, ao se iniciar um trabalho de vigilância
epidemiológica passiva da raiva em morcegos, verificou-se que, no período
de 1996 a 2004, 60 municípios apresentaram casos de raiva em
morcegos, na sua grande maioria em centros urbanos. Os Municípios que
têm apresentado maior número de casos são Ribeirão Preto, São José
do Rio Preto e Campinas, com certeza por realizarem uma vigilância
epidemiológica mais contínua.
Este trabalho se iniciou com um processo educativo assumido
pelo Instituto Pasteur em conjunto com os municípios (áreas de Saúde
e Agricultura). Profissionais de saúde e a população em geral foram
orientados a enviar morcegos suspeitos para os laboratórios de diagnóstico
de raiva, esclarecendo que morcego suspeito era aquele encontrado em
local e hora não habituais para estes animais, que possuem hábitos
noturnos.
Era de domínio público que os morcegos hematófagos eram
importantes transmissores da raiva para bovinos, eqüinos, suínos e
outros animais de criação, mas nem todos sabiam que todas as espécies
de morcegos são capazes de transmitir a raiva.
Atualmente, no Brasil, a raiva está registrada em 36 espécies
de morcegos, principalmente no Sudeste, considerada a região cuja
quiropterofauna é a mais estudada. A grande maioria destes casos
ocorreu em espécies insetívoras, que são as predominantes em nosso
meio. Apenas para comparar, nos Estados Unidos há 40 espécies e em
todas já houve isolamento do vírus da raiva.
Concomitantemente a esta vigilância epidemiológica da raiva
em morcegos, aumentaram, na região Sudeste e no Brasil, como um todo,
as fragmentações das nossas florestas, provocadas pelas atividades
humanas exercidas de forma irracional, retirando recursos naturais e
introduzindo criações de animais e novas culturas de importância
econômica. É necessário lembrar que, hoje, a Mata Atlântica está
reduzida a 7% da sua área original e que estas alterações
ambientais foram fatores fundamentais para o deslocamento das populações
de morcegos para os centros urbanos, que, no seu desenvolvimento
carente de planejamento e projetos paisagísticos desordenados,
promoveram uma acentuada oferta de alimento para os morcegos, insetívoros
e frugívoros.
Em relação aos fitófagos, pode-se afirmar que a permanência
das espécies em uma área e a migração das mesmas são conseqüências
da disponibilidade de alimentos (exemplos: Artibeus sp e Carollia
perspicillata). Os insetívoros, por sua vez, apresentam flutuações
sazonais, com diminuição de sua população no período de inverno,
quando os dias são mais curtos. Geralmente, as espécies de insetívoros
formam grandes colônias (exemplos: Tadarida brasiliensis e Nyctinomops
laticaudatus).
Além de diversas zoonoses que podem ser transmitidas por
morcegos, independentemente do hábito alimentar, os morcegos hematófagos
foram, em 2004, os principais transmissores da raiva para o homem, no
Brasil, tendência que se mantém em 2005. Este fato também foi
conseqüência da interferência do homem no meio ambiente, e supõe-se
que tal quadro não será alterado nos próximos anos, visto que tem
se repetido em vários Estados da Federação.
Apesar do número crescente de municípios paulistas que
apresentaram casos de raiva em áreas urbanas, o Instituto Pasteur tem
sugerido que se continue a desenvolver as atividades de vigilância
passiva, tendo em vista que o índice de positividade no Estado como
um todo tem mantido valores semelhantes aos encontrados na literatura
internacional. Somente em raras oportunidades este índice de
positividade tem sido superior a 2%, como aconteceu, em 2002, na região
de Presidente Prudente, após a ocorrência de um caso humano, quando
foi encontrado um índice de positividade de 4%.
Não se pode esquecer, quando se propõe uma estratégia de ação,
a importância ecológica dos morcegos, sua diversidade e sua abundância
nas regiões tropicais. A dispersão das sementes realizada pelos
morcegos frugívoros colabora para o estabelecimento de muitas espécies
de plantas pioneiras, auxiliando a regeneração de áreas tropicais.
Em relação aos insetívoros, ressalta-se sua importância no
controle de insetos em áreas urbanas e de pragas, que tantos prejuízos
trazem à agricultura.
Na figura 1 estão mostrados os Municípios de São Paulo que
apresentaram, no período de 1997-2004, casos de raiva em morcegos.
Neste período, a tendência apresentada foi de um aumento de espécimes
insetívoros infectados com o vírus da raiva, se comparado com hematófagos
e frugívoros. As espécies insetívoras apresentam diferentes
variantes do vírus da raiva e estudos antigênicos, imunogênicos e
genéticos têm sido desenvolvidos para uma melhor caracterização,
análise de riscos e adoção das ações de campo. No que diz
respeito aos espécimes frugívoros e hematófagos identificados com o
vírus da raiva, em 100% dos casos têm sido isolada a variante do
morcego hematófago (Desmodus rotundus), mostrando a importância
de trabalhos conjuntos entre as áreas da Saúde, da Agricultura e do
Meio Ambiente.
Figura 1
Municípios do Estado de São Paulo com Casos de Raiva em Morcegos
As ações para cobertura de foco de raiva em quirópteros
em centros urbanos, dependem de uma série de fatores, tais como: a
espécie do morcego; se é espécime solitário ou se forma colônias;
se as colônias são pequenas ou grandes (mais de 20 espécimes); o
local onde foi encontrado; se foi identificado o abrigo etc.
A conduta em relação aos cães e gatos que
tiveram contacto com morcegos depende de vários fatores: idade do
animal; número de doses de vacina que o animal já tomou; data da última
dose de vacina; tipo de contato etc. É importante ressaltar que os cães
e, especificamente, os gatos são predadores de morcegos e, tendo em
vista que as campanhas de vacinação não têm dado suficiente
destaque à vacinação de felinos, estes podem desempenhar um papel
relevante na reintrodução do vírus da raiva em áreas urbanas nas
quais o controle da enfermidade estava consolidado.
É preciso que cada profissional de saúde tenha
claro que, embora os morcegos constituam o mais importante reservatório
da raiva no nosso meio, os estudos de quirópteros devem enfocar, por
um lado, a conservação e o manejo e, por outro, a saúde pública,
levando em conta um programa de educação ambiental.
Bibliografia
- Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional
de profilaxia da raiva. Casos de raiva humana notificados e
percentual de casos transmitidos segundo a espécie animal.
Brasília:MS., 2004.
- Kotait I Raiva
em morcegos no Brasil. In:
Encontro Brasileiro para o Estudo de Quiropteros, 5, 2002, Porto Alegre. Anais. Divulg.Mus.Cienc.Tecnol./UBEA/PUCRS.
Porto Alegre, n.2, p.28-9, 2003.
Publicação especial.
- Kotait I, Aguiar, EAC, Carrieri ML, Harmani NMS
Manejo de quirópteros
em áreas urbanas. São
Paulo: Instituto Pasteur, 2003
44p. (Manuais,7)
- Rupprecht CE, Hanlon CA, Hemachudha T,
Rabies re-examined.
Lancet Infect.Dis., v.2, p.327-43, 2002
- Taddei VA Sistemática de quirópteros.
Bol.Inst.Pasteur, São Paulo, v.1, n.2, p.3-15, 1996
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