Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   
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Edição nº 1



janeiro, 2004   Ano1   Número 1                                                                             retorna
Foco de Esquistossomose - Litoral Norte do Estado de São Paulo,
novembro de 2003

A região do Litoral Norte é constituída pelos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela, Ubatuba e São Sebastião. Apresenta população predominantemente urbana, cujo suporte econômico é o turismo, e uma pequena parcela rural associada à lavoura de subsistência. Por ser área turística, sua população aumenta sensivelmente nos feriados e períodos de férias, época em que toda infra-estrutura sanitária fica comprometida.

O saneamento básico referente à coleta de esgoto é bastante precário nos quatro municípios. De acordo com informação da Sabesp, em 2000 Caraguatatuba apresentava índice de 21%, Ilhabela 1%, São Sebastião 29% e Ubatuba 18%, todos tratados. Nas figuras 1 a 7 pode-se observar a paisagem de alguns bairros de Caraguatatuba.

Os primeiros registros da presença na região do planorbídeo, hospedeiro intermediário da esquistossomose, ocorreram na década de 1980, bem como caso isolado de esquistossomose autóctone em Ubatuba (Chieffi e Waldman, 1988).

Na década de 1990, as ações de vigilância ao hospedeiro foram direcionadas para áreas com concentração de casos importados ou com suspeita de autoctonia. Nesse período, não houve registro de caramujo positivo para S. mansoni. Porém, surgem registros dos primeiros casos autóctones nos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião, detectados pela busca passiva (tabela 1).

No período compreendido entre 1997 e 2003, censos coproscópicos foram realizados com objetivo de monitorar as áreas consideradas de maior risco, isto é, grande concentração de migrantes, presença de hospedeiro intermediário e saneamento básico precário (tabela 2).

As pesquisas planorbídicas revelaram presença de hospedeiros intermediários: Biomphalaria tenagophila nos quatro municípios e Biomphalaria straminea, somente em Ilhabela (tabela 3).

Em 2003, com a descentralização de várias atividades referentes ao controle da dengue e seu vetor, foi possível organizar um trabalho de investigação epidemiológica mais aprimorado, com objetivo de melhor compreender a dinâmica da transmissão da esquistossomose, bem como a sua distribuição espacial no Litoral Norte.

Para tanto, a Sucen e o núcleo de Caraguatatuba (DIR-XXI), elaboraram a seguinte estratégia:

  • Solicitação às V.E. dos quatro municípios, cópias de todas as fichas de investigação epidemiológica (FIE) de esquistossomose notificadas no período de 1997 a 2003;
  • Avaliação dos locais prováveis de infecção dessas FIE, bem como reinvestigação pela Sucen, daquelas com suspeita de autoctonia ou cujo preenchimento, muitas vezes incompleto, não permitirá definir o local provável de infecção;
  • Cadastro das coleções hídricas com presença de caramujo;
  • Pesquisa malacológica nas imediações dos casos suspeitos de autoctonia e/ou concentração de migrantes;
  • Realização de censos populacionais ou escolares naquelas localidades com suspeita de autoctonia e/ou concentração de migrantes, com participação das equipes do PACS/PSF;
  • Busca de parcerias com outras secretarias e entidades para a solução dos problemas detectados.

Resultado

  • O número de casos registrados pela busca passiva nos quatro municípios foi maior que os notificados à Vigilância Epidemiológica e Sucen, surgindo autoctonia em áreas consideradas indenes;
  • Confirmação de casos autóctones nos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião;
  • As localidades de transmissão em São Sebastião localizam-se em áreas contíguas com as áreas de transmissão de Caraguatatuba;
  • Em Caraguatatuba, além dos bairros limítrofes com São Sebastião, existe transmissão em um bairro localizado na região norte (Olaria) e outro na região central (Indaiá);
  • Os caramujos infectados encontrados nos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião estavam em coleções hídricas próximas às residências dos casos autóctones;
  • A elevada freqüência de caramujos infectados em 2003 poderia ser explicada pelo longo período de estiagem registrado neste ano na região, cuja localização dos criadouros em valas a céu aberto facilitaria a concentração de cercarias. Além disso, a identificação e exame desses caramujos no Laboratório da Sucen, em Caraguatatuba, que reduziu o tempo entre a coleta e o exame.
  • A detecção de casos autóctones foi maior nos censos populacionais do que em escolares;
  • A maioria dos casos positivos detectados nos censos era importada.

Vale ressaltar que no município de Caraguatatuba, após a detecção de oito casos autóctones no Bairro Olaria em 2002, buscou-se um trabalho articulado com vários órgãos da Secretaria de Estado de Saúde (Vigilância Epidemiológica, Vigilância Sanitária e Sucen) com os órgãos municipais (Saúde, Educação, Obras, Urbanismo, Meio Ambiente e Assistência Social), além da Sabesp, com objetivo de se encontrar soluções para o problema ora vigente no bairro. O acompanhamento foi feito por meio de reuniões periódicas com todas as instituições envolvidas.

Nessa localidade foi realizado censo populacional pela Sucen, com a participação dos agentes do PSF, no retorno às casas fechadas, revelando 47 casos importados e uma prevalência autóctone de 0,79 (18 casos: 83% do sexo masculino e 55% na faixa etária de 10 a 19 anos).

A participação da Sabesp e das secretarias de Obras, Meio Ambiente e Turismo tem sido fundamental, visto que já ocorreu o aterramento das áreas alagadas, pois está em licitação a execução de obra de saneamento na rua onde se concentrou o maior número de casos e foi realizado o levantamento das residências em que o esgoto necessita ser ligado à rede foi providenciada, ainda, a confecção de placas para serem instaladas ao longo do rio onde a população entra para coletar areia. A comunidade foi informada sobre o problema por meio de reunião com as lideranças e pela equipe do PSF, durante suas visitas.

O outro censo populacional está sendo realizado no bairro Perequê Mirim, Caraguatatuba, nas imediações do foco onde foi encontrado caramujo albergando S. mansoni.

Considerações finais

Diante dos resultados apresentados, podemos concluir que a presença de migrantes originários de áreas endêmicas, acrescida da presença de espécie planorbídica suscetível à infestação de S. mansoni em áreas periféricas desprovidas de infra-estrutura de saneamento nos municípios de Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião, criaram condições favoráveis ao fechamento do ciclo biológico do parasita, surgindo os focos autóctones de transmissão. Essa situação bioecológica ocorre também em Ubatuba, porém, até o momento, não há registro de caso.

Estratégias a serem adotadas

  • Garantir que todas as FIE detectadas pela busca passiva sejam devidamente preenchidas e enviadas à Vigilância Epidemiológica do Núcleo de Caraguatatuba, que as enviará para a Sucen para avaliação;
  • Treinamento das Vigilâncias Epidemiológicas municipais, para o conhecimento sobre a doença e áreas de transmissão, bem como o preenchimento correto das FIE;
  • Solicitação à rede básica de saúde para a realização de exames de fezes em crianças que residem na área de transmissão e com concentração de migrantes;
  • Definição de uma equipe permanente de educação para o desenvolvimento de trabalhos junto à população e escolares;
  • Realização de censos populacionais ou escolares nos bairros onde foram detectados casos autóctones. O órgão responsável deverá ainda ser definido;
  • Realização de pesquisas planorbídicas bimestrais nas coleções hídricas cadastradas como área de risco (áreas de foco e vigilância intensiva), bem como o término do cadastro das coleções hídricas com potencial;
  • Esclarecimento às secretarias Municipais de Saúde e Meio Ambiente sobre a aplicação de moluscicida, quando necessário;

Finalmente, reuniões periódicas com representantes da Sucen, Núcleo de Caraguatatuba, secretarias de Saúde, Meio Ambiente, Obras, Sabesp, Pacs/PSF em cada município, para definição das ações a serem tomadas, bem como seu acompanhamento.


Autor: Condino M.L.F., Sucen - SR-03 - Taubaté

BIBLIOGRAFIA 

CHIEFFI, P.P. & WALDMAN, E.A. Aspectos particulares do comportamento epidemiológico da Esquistossomose Mansônica no Estado de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, R.J., 4:253-6, 1988.


Agência Paulista de Controle de Doenças