Módulo II —
Controle da Reprodução de Cães e Gatos
A maioria dos centros urbanos enfrenta o problema da superpopulação
de cães e gatos, que oferece riscos à saúde e à segurança pública,
à saúde animal e ao meio ambiente, onerando o poder público com
investimentos necessários para a remoção, o manejo e a eutanásia,
entre outros (Nassar; Fluke, 1991).
As atividades isoladas de remoção e eliminação de cães e gatos não
são efetivas para o controle das populações desses animais, sendo
necessário atuar na causa do problema: a procriação animal
excessiva e a falta de responsabilidade dos proprietários na posse,
propriedade e guarda de seus animais (WHO; WSPA, 1990).
Por serem animais pluríparos de gestação curta (ao redor de 60 dias),
com grande potencial de produção de proles numerosas seqüenciais e
devido ao rápido amadurecimento sexual dos mesmos, já no segundo
semestre de vida, o excesso de cães e gatos permanece como um
problema até que programas efetivos envolvendo o controle da reprodução
sejam instituídos (Olson; Johnson, 1993).
O vínculo
estabelecido entre os seres humanos e os animais de estimação está
intimamente relacionado às condições sócio-econômico-culturais de
cada comunidade. Em situações de desequilíbrio, a intervenção
para o controle de reprodução dos cães e gatos, além da
conscientização para a posse, propriedade
ou guarda responsável, é de fundamental importância e de competência
do poder público para a promoção da saúde.
Assim,
a Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) recomenda a implantação
do controle de reprodução de cães e gatos nos municípios do Estado
de São Paulo.
Métodos de Controle da Reprodução
A interferência no ciclo reprodutivo de cães e gatos, a fim de suprimir
a concepção, pode ocorrer por três métodos:
·
Cirúrgico — induz
à esterilidade ou infertilidade permanente por meio de alterações
anatômicas;
·
Farmacológico —
de bloqueio da implantação embrionária, de bloqueio do ciclo estral
e de indução à perda embrionária e fetal;
·
Imunológico — de
bloqueio da atividade reprodutiva.
Método cirúrgico de esterilização
A principal vantagem
do método cirúrgico de esterilização é o fato de ser realizado em
um único procedimento, causando a perda irreversível da capacidade
reprodutiva. Atualmente, a ovario-salpingo-histerectomia (OSH), retirada
de ovários, útero e trompas, e a orquiectomia (OC), retirada dos
testículos, são os métodos de eleição para o controle da reprodução
em cães e gatos (Olson; Johnson, 1993; Mahlow, 1996).
As fêmeas
esterilizadas cirurgicamente não apresentam cio e os machos
orquiectomizados, ao contrário dos vasectomizados, perdem
progressivamente a libido, diminuindo, portanto, a possibilidade da
formação de grupos de animais, minimizando a ocorrência de brigas,
agravos a humanos e transmissão de enfermidades (Heidenberger
& Unshelm,
1990, Maarschalkerweerd et al.,
1997, Neilson et al., 1997).
A esterilização
cirúrgica antes da puberdade ou a partir de 8 semanas de vida
apresenta as vantagens de evitar o risco da ocorrência da primeira
cria dos cães e gatos, além de diminuir significativamente a incidência
do tumor de mama nas fêmeas. É um procedimento seguro, mais rápido
e de menor custo que nos adultos, e os animais apresentam rápida
recuperação. A gonadectomia antes da puberdade diminui a incidência
de obesidade nos caninos e incontinência urinária nas cadelas
(Feldman & Nelson, 2004; Schneider, 1969 apud Olson, 1993).
As desvantagens das
cirurgias de esterilização se referem às complicações cirúrgicas
e anestésicas, principalmente quando realizadas por profissionais
inexperientes e ao tratamento dispensado pelo proprietário no período
de recuperação pós-cirúrgica (Mackie, 1998).
Os procedimentos de
esterilização cirúrgica em massa de cães e gatos devem obedecer a
critérios idênticos aos dos individuais, ou seja, existência de
sala para preparo, sala de cirurgia, sala para pós-cirúrgico, avaliação
clínica do paciente, procedimentos de esterilização do material,
preparação do paciente (anestesia geral e assepsia do campo cirúrgico)
e esterilidade de todo o procedimento até os cuidados pós-cirúrgicos
necessários.
Devem ser utilizadas
técnicas de esterilização cirúrgica minimamente invasivas para a
racionalização do tempo cirúrgico e dos recursos materiais e
humanos necessários, além dos benefícios na recuperação do animal
e diminuição dos riscos de infecção. Fios de algodão não deverão
ser utilizados em cadelas devido às reações inflamatórias que
podem ocasionar, colocando em risco a vida do animal. A ferida cirúrgica
na técnica de esterilização cirúrgica tradicional pode chegar até
15 cm em cadelas, já nas técnicas minimamente invasivas ela varia em
torno de 2 cm a 5 cm em cadelas em condições normais (sem piometra
ou tumores), portanto com menor manipulação, pós-cirúgico mais
seguro, com menos intercorrências, menos doloroso e cicatrização em
menor tempo.
Outra atividade que tem apresentado bons resultados é a gonadectomia,
cirurgia para remoção das gônadas dos animais, antes da puberdade.
É um procedimento seguro, mais rápido e de menor custo que nos
adultos, em que os animais apresentam rápida recuperação, podendo
ser realizado a partir dos 2 meses de idade. O uso desta técnica
prescinde da necessidade do emprego de cuidados específicos para
anestesia e jejum e pós-operatório dos animais. A importância de
sua adoção está na constatação de que um dos fatores que
contribuem para a grande quantidade de animais abandonados é a
primeira cria já na ocorrência do primeiro cio, conforme experiências
de outros paises, mesmo em centros mais avançados (Olson et
al., 2000).
Métodos farmacológicos
Quanto aos métodos farmacológicos, os progestágenos são os principais
fármacos empregados, podendo ser classificados em fármacos de curta
duração, aplicados diariamente, e de longa duração, reaplicados em
períodos variáveis de, no máximo, seis meses.
A aplicação dos métodos farmacológicos em programas de controle
populacional, sem a possibilidade de avaliação individual e
determinação correta da fase do ciclo estral por meio de exame
laboratorial, pode desencadear uma série de problemas – como a
hiperplasia cística endometrial, piometra, tumores de mama e, nos
animais gestantes, o não desencadeamento do parto com conseqüente
morte fetal –, colocando em risco a vida do animal.
Portanto, devido à reversibilidade dos métodos farmacológicos,
necessidade de diversas aplicações e determinação precisa da fase
do ciclo estral, estes são desaconselhados em ações para o
controle das populações de cães e gatos (Jöchler W., 1974, Jöchler
W., 1991, Feldman & Nelson, 2004).
Outros métodos
Os métodos de contracepção imunológica são ainda experimentais (Boué
et al., 2004, Griffin et
al., 2004).
Os fármacos que impedem a implantação ou induzem perda embrionária são
indicados apenas nos casos de estabelecimento de prenhez indesejada, não
sendo aplicados em ações para o controle populacional devido à
necessidade de aplicação do fármaco em um período específico da
gestação e acompanhamento ambulatorial veterinário de cada caso.
Recomendações
-
A implantação de atividades de controle da reprodução de cães
e gatos, por meio da esterilização dos animais, nos serviços
municipais;
-
O emprego das cirurgias de esterilização de ovário-salpingo-histerectomia
(OSH) para fêmeas e orquiectomia (OC) para machos, para o controle da
reprodução de cães e gatos;
-
A esterilização cirúrgica de cães e gatos a partir de 8
semanas de idade;
-
Capacitação dos médicos veterinários responsáveis pela
realização das cirurgias de esterilização em massa e menos
invasivas;
-
Que haja endosso dos Conselhos Municipais de Saúde e de Defesa
do Meio Ambiente;
-
Que haja previsão de recursos anuais específicos e inclusão
na Lei de Diretrizes Orçamentárias e na Previsão Orçamentária
Anual;
-
Que o município disponibilize serviços próprios ou parcerias
que viabilizem acesso geográfico e econômico facilitado à população,
para a realização das cirurgias de esterilização;
-
Que procedimentos de controle da reprodução sejam parte integrante de um programa municipal de controle das populações
de cães e gatos;
-
Sempre que possível, o emprego da técnica cirúrgica de
esterilização minimamente invasiva;
-
Desenvolvimento associado de programas de saúde animal, como
vacinações e vermifugações e outros, nas populações de cães e
gatos;
-
Implantação e manutenção de programa educativo permanente e
especifico sobre o tema;
-
O incentivo da esterilização por meio da isenção de taxas
como, por exemplo, de registro e identificação.
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