Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272

Publicação
Expediente
 
DownLoad

 
Edições Anteriores

 


Julho, 2005   Ano 2   Número 19                                                                     retorna
Programa de Controle de Populações de Cães e Gatos do Estado de
São Paulo

Adriana Maria Lopes Vieira e Aparecido Batista de Almeida,
Coordenadoria de Controle de Doenças – CCD/SES-SP;
Cristina Magnabosco, Prefeitura de Guarulhos;
João Carlos Pinheiro Ferreira e Stélio Loureiro Pacca Luna
,
FMVZ Unesp Botucatu;
Jonas Lotufo Brant de Carvalho
,
Prefeitura de Botucatu;
Luciana Hardt Gomes e Noemia Tucunduva Paranhos
,
Prefeitura de São Paulo;
Maria de Lourdes Reichmann
,
Instituto Pasteur;
Rita de Cassia Garcia
,
Instituto Nina Rosa e Prefeitura de Taboão da Serra;
Vania de Fátima Plaza Nunes
,
Prefeitura de Jundiaí;

Viviane Benini Cabral,
Advogada Sanitarista Ambiental


Módulo II — Controle da Reprodução de Cães e Gatos

A maioria dos centros urbanos enfrenta o problema da superpopulação de cães e gatos, que oferece riscos à saúde e à segurança pública, à saúde animal e ao meio ambiente, onerando o poder público com investimentos necessários para a remoção, o manejo e a eutanásia, entre outros (Nassar; Fluke, 1991).

As atividades isoladas de remoção e eliminação de cães e gatos não são efetivas para o controle das populações desses animais, sendo necessário atuar na causa do problema: a procriação animal excessiva e a falta de responsabilidade dos proprietários na posse, propriedade e guarda de seus animais (WHO; WSPA, 1990).

Por serem animais pluríparos de gestação curta (ao redor de 60 dias), com grande potencial de produção de proles numerosas seqüenciais e devido ao rápido amadurecimento sexual dos mesmos, já no segundo semestre de vida, o excesso de cães e gatos permanece como um problema até que programas efetivos envolvendo o controle da reprodução sejam instituídos (Olson; Johnson, 1993).  

O vínculo estabelecido entre os seres humanos e os animais de estimação está intimamente relacionado às condições sócio-econômico-culturais de cada comunidade. Em situações de desequilíbrio, a intervenção para o controle de reprodução dos cães e gatos, além da conscientização para a posse, propriedade ou guarda responsável, é de fundamental importância e de competência do poder público para a promoção da saúde.

Assim, a Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) recomenda a implantação do controle de reprodução de cães e gatos nos municípios do Estado de São Paulo.

Métodos de Controle da Reprodução

A interferência no ciclo reprodutivo de cães e gatos, a fim de suprimir a concepção, pode ocorrer por três métodos:

·        Cirúrgico — induz à esterilidade ou infertilidade permanente por meio de alterações anatômicas;

·        Farmacológico — de bloqueio da implantação embrionária, de bloqueio do ciclo estral e de indução à perda embrionária e fetal;

·        Imunológico — de bloqueio da atividade reprodutiva.

Método cirúrgico de esterilização

A principal vantagem do método cirúrgico de esterilização é o fato de ser realizado em um único procedimento, causando a perda irreversível da capacidade reprodutiva. Atualmente, a ovario-salpingo-histerectomia (OSH), retirada de ovários, útero e trompas, e a orquiectomia (OC), retirada dos testículos, são os métodos de eleição para o controle da reprodução em cães e gatos (Olson; Johnson, 1993; Mahlow, 1996).

As fêmeas esterilizadas cirurgicamente não apresentam cio e os machos orquiectomizados, ao contrário dos vasectomizados, perdem progressivamente a libido, diminuindo, portanto, a possibilidade da formação de grupos de animais, minimizando a ocorrência de brigas, agravos a humanos e transmissão de enfermidades (Heidenberger & Unshelm, 1990, Maarschalkerweerd et al., 1997, Neilson et al., 1997).

A esterilização cirúrgica antes da puberdade ou a partir de 8 semanas de vida apresenta as vantagens de evitar o risco da ocorrência da primeira cria dos cães e gatos, além de diminuir significativamente a incidência do tumor de mama nas fêmeas. É um procedimento seguro, mais rápido e de menor custo que nos adultos, e os animais apresentam rápida recuperação. A gonadectomia antes da puberdade diminui a incidência de obesidade nos caninos e incontinência urinária nas cadelas (Feldman & Nelson, 2004; Schneider, 1969 apud Olson, 1993).

As desvantagens das cirurgias de esterilização se referem às complicações cirúrgicas e anestésicas, principalmente quando realizadas por profissionais inexperientes e ao tratamento dispensado pelo proprietário no período de recuperação pós-cirúrgica (Mackie, 1998).

Os procedimentos de esterilização cirúrgica em massa de cães e gatos devem obedecer a critérios idênticos aos dos individuais, ou seja, existência de sala para preparo, sala de cirurgia, sala para pós-cirúrgico, avaliação clínica do paciente, procedimentos de esterilização do material, preparação do paciente (anestesia geral e assepsia do campo cirúrgico) e esterilidade de todo o procedimento até os cuidados pós-cirúrgicos necessários.

Devem ser utilizadas técnicas de esterilização cirúrgica minimamente invasivas para a racionalização do tempo cirúrgico e dos recursos materiais e humanos necessários, além dos benefícios na recuperação do animal e diminuição dos riscos de infecção. Fios de algodão não deverão ser utilizados em cadelas devido às reações inflamatórias que podem ocasionar, colocando em risco a vida do animal. A ferida cirúrgica na técnica de esterilização cirúrgica tradicional pode chegar até 15 cm em cadelas, já nas técnicas minimamente invasivas ela varia em torno de 2 cm a 5 cm em cadelas em condições normais (sem piometra ou tumores), portanto com menor manipulação, pós-cirúgico mais seguro, com menos intercorrências, menos doloroso e cicatrização em menor tempo.

Outra atividade que tem apresentado bons resultados é a gonadectomia, cirurgia para remoção das gônadas dos animais, antes da puberdade. É um procedimento seguro, mais rápido e de menor custo que nos adultos, em que os animais apresentam rápida recuperação, podendo ser realizado a partir dos 2 meses de idade. O uso desta técnica prescinde da necessidade do emprego de cuidados específicos para anestesia e jejum e pós-operatório dos animais. A importância de sua adoção está na constatação de que um dos fatores que contribuem para a grande quantidade de animais abandonados é a primeira cria já na ocorrência do primeiro cio, conforme experiências de outros paises, mesmo em centros mais avançados (Olson et al., 2000).  

Métodos farmacológicos

Quanto aos métodos farmacológicos, os progestágenos são os principais fármacos empregados, podendo ser classificados em fármacos de curta duração, aplicados diariamente, e de longa duração, reaplicados em períodos variáveis de, no máximo, seis meses.

A aplicação dos métodos farmacológicos em programas de controle populacional, sem a possibilidade de avaliação individual e determinação correta da fase do ciclo estral por meio de exame laboratorial, pode desencadear uma série de problemas – como a hiperplasia cística endometrial, piometra, tumores de mama e, nos animais gestantes, o não desencadeamento do parto com conseqüente morte fetal –, colocando em risco a vida do animal.

Portanto, devido à reversibilidade dos métodos farmacológicos, necessidade de diversas aplicações e determinação precisa da fase do ciclo estral, estes são desaconselhados em ações para o controle das populações de cães e gatos (Jöchler W., 1974, Jöchler W., 1991, Feldman & Nelson, 2004).

Outros métodos

Os métodos de contracepção imunológica são ainda experimentais (Boué et al., 2004, Griffin et al., 2004).

Os fármacos que impedem a implantação ou induzem perda embrionária são indicados apenas nos casos de estabelecimento de prenhez indesejada, não sendo aplicados em ações para o controle populacional devido à necessidade de aplicação do fármaco em um período específico da gestação e acompanhamento ambulatorial veterinário de cada caso.

Recomendações

  1. A implantação de atividades de controle da reprodução de cães e gatos, por meio da esterilização dos animais, nos serviços municipais;

  2. O emprego das cirurgias de esterilização de ovário-salpingo-histerectomia (OSH) para fêmeas e orquiectomia (OC) para machos, para o controle da reprodução de cães e gatos;

  3. A esterilização cirúrgica de cães e gatos a partir de 8 semanas de idade;

  4. Capacitação dos médicos veterinários responsáveis pela realização das cirurgias de esterilização em massa e menos invasivas;

  5. Que haja endosso dos Conselhos Municipais de Saúde e de Defesa do Meio Ambiente;

  6. Que haja previsão de recursos anuais específicos e inclusão na Lei de Diretrizes Orçamentárias e na Previsão Orçamentária Anual;

  7. Que o município disponibilize serviços próprios ou parcerias que viabilizem acesso geográfico e econômico facilitado à população, para a realização das cirurgias de esterilização;

  8. Que procedimentos de controle da reprodução sejam parte integrante de um programa municipal de controle das populações de cães e gatos;

  9. Sempre que possível, o emprego da técnica cirúrgica de esterilização minimamente invasiva;

  10. Desenvolvimento associado de programas de saúde animal, como vacinações e vermifugações e outros, nas populações de cães e gatos;

  11. Implantação e manutenção de programa educativo permanente e especifico sobre o tema;

  12. O incentivo da esterilização por meio da isenção de taxas como, por exemplo, de registro e identificação.

Referências Bibliográficas

  1. BOUÉ, F., FARREE, G., VERDIER, Y., ROLLAND-TURNER, M., P13 DNA vaccine for canine species: immune studyng and strategy for the development of an immunocontraceptive vaccine, Proceedings of II International The Alliance  for Contraception in Cats and Dogs Symposium, Beaver Run – CO, p.187, 2004.

  2. FELDMAN, E.D., NELSON, R.W., Canine and feline endocrinology and reproduction, 3rd ed. St Louis, Sauders, 2004, 1089p.

  3. GRIFFIN, B., BAKER, H., WELLES, E., MILLER, L., FAGERSTONE, K., Response of dogs to a GnRH-KLH conjugate contraceptive vaccine adjuvanted with adjuvacÒ.  Proceedings of II International The Alliance  for Contraception in Cats and Dogs Symposium, Beaver Run – CO, p.189-190, 2004.

  4. HEIDENBERGER E., UNSHELM J., Changes in the behavior of dogs after castration. Tierarztl Prax. v.18, p.69-75. 1990.

  5. JÖCHLER, W., Pet population control in Europe. Journal American Veterinary Medicine Association, v.198, p.1225-1230, 1974.

  6. JÖCHLER, W., Pet population control: chemicals methods. Canine Practice, v.1, p.8-18, 1974.

  7. MAARSCHALKERWEERD, R.J., N. ENDENBURG, J. KIRPENSTEIJN AND B.W. KNOL.  Influence of orchiectomy on canine behaviour. The Veterinary Record, v.140, p. 617-69, 1997.

  8. MAHLOW, J.C., SLATER, M.R., Current issues in the control of stray and feral cats. Journal American Veterinary Medicine Association, v. 209, p. 2016-2020, 1996.  

  9. MAKIE, M., I Congresso Brasileiro de Bem-estar Animal da Arca Brasil. São Paulo, dezembro 1998.

  10. NASSAR, R, FLUKE, J., Pet population dynamics and community planning for animal welfare and animal control. Journal American Veterinary Medicine Association, v. 198, n. 7, 1160-1164, 1991.

  11. NEILSON, J.C., R.A. ECKSTEIN, AND B.L. HART.  Effects of castration on problem behaviors in male dogs with reference to age and duration of behavior. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 211, p.180-2, 1997.

  12. OLSON, P.N., JOHNSON, S.D., New developments in small animal population control. Journal American Veterinary Medicine Association, v. 202, p. 904-909, 1993.

  13. OLSON, P.N., ROOTS KUSTRIZ, M.V., JOHNSTON, S.D.,  Early-age neutering of dogs and cats in the United States (A review). Journal of Reproduction and Fertility, Suppl. 57, p.223-232, 2000.

  14. SCHNEIDER, 1969 apud OLSON, 1993

  15. WOLD HEALTH ORGANIZATION – WHO; WORLD SOCIETY FOR THE PROTECTION OF ANIMALS – WSPA: Guidelines for dog population management. Geneva, 1990. 116 p.

Coordenadoria de Controle de Doenças