Introdução
As
estatísticas de morbidade e mortalidade são utilizadas para avaliar
a situação da saúde da população e desenvolver políticas públicas
de saúde (Luiz, 1997; Laurenti, 1990). Na análise dos dados de
mortalidade, apontam-se as causas de morte que assolam a população,
discutem-se os dados segundo a idade, o sexo e o grupo social ou frações
de classe, mas não se discutem as diferentes construções
socioculturais existentes na sociedade e seus reflexos no perfil da
mortalidade. Por exemplo, não se contempla a raça/cor como categoria
de análise. Uma das justificativas para tanto é que apenas em 1996
se inseriu a variável raça/cor nos atestados de óbitos.
Em
1998, Barbosa realizou estudo sobre a mortalidade da população negra
na cidade de São Paulo, usando, para análise, os óbitos ocorridos
durante seis meses; todavia, nenhum estudo foi realizado para o Estado
de São Paulo. Sabe-se que este Estado tem o maior contingente de
população negra (pretos e pardos) do Brasil e que seus dados de
estatísticas vitais são de boa qualidade. Se em 1996, do total de óbitos
ocorridos em São Paulo, 87% não tinham indicação de qual era a raça/cor
dos indivíduos, em 1997, o percentual caiu para 61%; em 1998, 21%; em
1999, 13% e 6,5% em 2000[1],
possibilitando o uso da variável raça/cor nos estudos.
Ao realizar a pesquisa
“Mulheres e homens negros: saúde, doença e morte” optei por
realizar o estudo com os óbitos ocorridos no Estado de São Paulo no
período de 1996-2000. Como os dados populacionais do censo 2000,
segundo município, raça/cor e idade, não estavam disponíveis, não
foi possível atingir o objetivo. As diferenças no perfil da
mortalidade de brancos e negros em São Paulo foram
analisadas, então, para o ano de 1999, cujos dados existentes eram os
melhores, naquele momento.
O IBGE trabalha com
cinco variáveis de raça/cor, a saber: branco, preto, pardo, amarelo
e indígena – quando utiliza a categoria “negro” está se
referindo a preto mais pardo (negro = preto+pardo).
A análise de
correspondência realizada por Batista et al. (2004) evidencia que há
diferença no perfil da mortalidade segundo a raça/cor, que pretos e
pardos apresentam perfil de óbito semelhante, mas a intensidade
difere, brancos e outros morrem das mesmas causas e a intensidade
difere muito pouco. O presente artigo analisa o perfil da mortalidade
de brancos e pretos (duas variáveis polares).
Resultados
No ano de 1999
ocorreram 236.025 óbitos no Estado de São Paulo: 141.446 eram homens
e 94.579, mulheres; 93 mil eram homens brancos (perfazendo uma taxa de
750 óbitos para cada 100 mil homens brancos), 6.921 homens pretos
(954 por 100 mil homens pretos), 23.073 outros[2]
(528 por 100 mil homens pardos, amarelos e indígenas) e 18.452 óbitos
masculinos, cuja raça/cor foi ignorada. Quando se comparam as taxas de
óbitos dos homens pretos e brancos verifica-se entre os pretos a
maior taxa de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias,
doenças endócrinas e metabólicas, transtornos mentais, doenças do
aparelho circulatório e causas externas (tabela 1).
Entre as doenças
infecciosas e parasitárias se destaca a maior mortalidade dos homens
pretos por tuberculose e HIV/Aids. Dentre as doenças endócrinas,
nutricionais e metabólicas, a diabetes mellitus é a principal causa
de morte. A morte em função do alcoolismo é a principal causa entre
os pretos e a demência, para os brancos. Numa visão comparativa
entre os óbitos dos homens pretos e brancos por doenças do aparelho
circulatório, nota-se que prevalece entre os pretos o óbito por
infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Proporcionalmente, os pretos morrem duas vezes mais que os brancos por
causas externas. Além disso, a desagregação deste grupo de causas
em três dígitos da CID-10 explicita melhor a diferença entre eles,
ou seja, enquanto os brancos morrem por acidente de veículo a motor,
os pretos morrem por agressões com arma de fogo, objetos
contundentes, agressões não especificadas, atropelamentos e homicídio.
Dos 94.579 óbitos
femininos ocorridos no Estado de São Paulo em 1999, 64.512 mil
mulheres eram brancas (perfazendo uma taxa de 481 por 100 mil mulheres
brancas), 4.085 pretas (517 por 100 mil mulheres pretas), 12.155
pardas, amarelas e indígenas (285 por 100 mil mulheres pardas,
amarelas e indígenas) e, nestes óbitos, num total de 13.827, a raça/cor
foi ignorada. Quando se comparam os coeficientes, constata-se a maior
taxa de mortalidade das mulheres pretas, principalmente por doenças
infecciosas e parasitárias (tuberculose e o HIV/Aids), doenças endócrinas
e metabólicas (diabetes), transtornos mentais (alcoolismo e “drogadição”),
doenças do aparelho circulatório (insuficiência cardíaca e
acidente vascular cerebral), gravidez, parto, puerpério e causas
externas. As mulheres brancas são mais vulneráveis às neoplasias,
doenças do sangue e dos órgãos hematopoéticos, doenças do sistema
nervoso, aparelho respiratório e as afecções originárias do período
perinatal (tabela 1).
Tabela 1
Proporção de óbitos dos
residentes no Estado de São Paulo, segundo sexo, raça/cor e capítulos
da CID (10), 1999
|
|
Capítulos da CID
|
MULHERES
|
HOMENS
|
|
|
|
|
Brancas
|
Pretas
|
Razão
entre os
coeficientes
|
Brancos
|
Pretos
|
Razão
entre os coeficientes
|
|
|
|
Taxa
|
Taxa
|
Pretas/Brancas
|
Taxa
|
Taxa
|
Pretas/Brancas
|
|
|
TOTAL
|
481,31
|
517,01
|
1,07
|
750,60
|
954,23
|
1,27
|
|
I
|
Algumas Doenças Infecciosas e
Parasitárias
|
19,30
|
31,01
|
1,61
|
36,25
|
67,28
|
1,86
|
|
II
|
Neoplasias
|
81,72
|
74,80
|
0,92
|
108,55
|
87,00
|
0,80
|
|
III
|
D. Sangue, hematopoéticos e Tr.
Imunitários
|
2,10
|
1,39
|
0,66
|
2,28
|
2,21
|
0,97
|
|
IV
|
D. Endoc. Nutricionais e Metabólicas
|
29,78
|
39,74
|
1,33
|
25,92
|
30,75
|
1,19
|
|
V
|
Transtornos Mentais e
Comportamentais
|
1,92
|
3,29
|
1,71
|
6,38
|
19,58
|
3,07
|
|
VI
|
D. do Sistema Nervoso
|
7,41
|
5,44
|
0,73
|
9,80
|
11,44
|
1,17
|
|
IX
|
D. do Aparelho Circulatório
|
174,48
|
199,59
|
1,14
|
212,93
|
244,45
|
1,15
|
|
X
|
D. do Aparelho Respiratório
|
56,34
|
43,79
|
0,78
|
77,37
|
72,52
|
0,94
|
|
XI
|
D. do Aparelho Digestivo
|
20,94
|
21,90
|
1,05
|
46,41
|
44,40
|
0,96
|
|
XIV
|
D. do Aparelho Geniturinário
|
8,77
|
9,75
|
1,11
|
10,68
|
11,03
|
1,03
|
|
XV
|
Gravidez, Parto e Puerpério
|
37,90
|
245,54
|
6,4
|
|
|
|
|
XVII
|
Malformação Congênita e
Deformidades...
|
5,54
|
2,28
|
0,41
|
7,01
|
3,45
|
0,49
|
|
XX
|
Causas Externas de Morbidade e
Mortalidade
|
23,26
|
30,37
|
1,31
|
136,23
|
274,37
|
2,01
|
TOTAL (N)
|
64.512
|
4.085
|
|
93.000
|
6.921
|
|
A taxa de mortalidade
materna das mulheres pretas supera em 6,4 vezes a das brancas. A taxa
de óbitos por morte materna é de 245,54 entre as mulheres pretas e
37,90 entre as brancas. O estudo pôde constatar que o óbito das
mulheres pretas supera em 5,9 vezes a taxa oficial, fornecida pela
Secretaria de Estado da Saúde (41,4/100 n.v).
A análise das taxas
de mortalidade desagregadas por três dígitos da CID-10 mostra a
maior mortalidade dos pretos por tuberculose, HIV/Aids, diabetes
mellitus, câncer do esôfago, colo de útero e próstata e acidente
vascular cerebral.
Os dados aqui apresentados apenas evidenciam o
que o movimento de mulheres negras vem denunciando há anos: “a
morte tem cor” [3].
A novidade é que com a inclusão da raça/cor no atestado de óbito
as denúncias do movimento social podem ser analisadas com os
instrumentos da produção científico-acadêmica. Hoje isto é possível
em relação à mortalidade, mas não em relação aos atendimentos
hospitalares e ambulatoriais. Se os estudos de mortalidade servem para
diagnosticar problemas de saúde e sugerir políticas, ainda não foi
possível sensibilizar gestores de saúde a desagregar os dados
oficiais por raça/cor; realizar ações para promover a eqüidade em
saúde e transformar os estudos produzidos pela academia e movimentos
sociais em políticas públicas. Mas há um fato novo, a Secretaria de
Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS) deve lançar em
novembro o livro “Saúde Brasil, 2005” com todos os dados
desagregados segundo a raça/cor, idade, sexo, escolaridade e região.
A RIPSA também vai lançar o “IDB Brasil, 2005” com indicadores
de saúde por grandes regiões, unidades federadas, sexo e raça/cor.
Referências
Bibliográficas
BARBOSA, M.I. da S., Racismo
e saúde. São Paulo, 1998. Tese (Doutorado) – Faculdade de Saúde
Pública. Universidade de São Paulo.
BATISTA,
L.E., Mulheres e homens negros:
saúde, doença e morte. Araraquara, 2002.
Tese (Doutorado) – Faculdade de Ciências e Letras.
Universidade Estadual Paulista.
BATISTA, L.E., ESCUDER, M.M.L. e PEREIRA, J.C.
A cor da morte: causas de óbito segundo características de raça no
Estado de São Paulo, 1999 a 2001. Rev.
Saúde Pública, 2004, vol.38, n.5, p.630-636.
LAURENTI,
R. et al., Mortalidade de mulheres em idade fértil no Município de São Paulo
(Brasil), 1986. II Mortes
por causas maternas. Rev. Saúde Pública, v. 24, p.1.468-1.471,
1990.
LUIZ,
O.C., Perspectivas da avaliação
de situação de saúde: uma apreciação crítica. São Paulo,
1997. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Medicina. Universidade
de São Paulo.
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