Em setembro de 2004, a Coordenação Estadual de DST/Aids – SP
elaborou um questionário com o objetivo de traçar um panorama das
experiências de prevenção às DST/Aids dirigidas a adolescentes,
desenvolvidas no Estado de São Paulo. Com a colaboração das Direções
Regionais de Saúde (DIR´s), o questionário foi repassado para todos os
Programas Municipais de DST/Aids com recursos do PAM (Plano de Ações
e Metas) e para outras instituições/ONG que realizassem ações de
prevenção com adolescentes. Dos 142 municípios, 68 (46%)
responderam o questionário. Desses, apenas três (4,5%) não
desenvolvem ações de prevenção com essa população. Neste texto,
apresentamos e discutimos os resultados obtidos, considerando as
estratégias adotadas pelos municípios para desenvolver estas ações.
Estratégias
de prevenção
Tabela 1
Ações de prevenção às DST/Aids desenvolvidas pelos Municípios
do Estado de São Paulo – setembro de 2004*
| Ações desenvolvidas
|
Número
de municípios que desenvolvem a ação
|
%
|
|
Palestras
|
|
|
|
Palestras em escolas
|
55
|
81
|
|
Palestras em outras instituições/locais
|
45
|
66
|
|
Oficinas
|
|
|
|
Realização de oficinas em escolas
|
32
|
47
|
| Realização
de oficinas em outras instituições/locais
|
25
|
37
|
|
Insumos
|
|
|
|
Distribuição de preservativos
|
54
|
79
|
| Produção
de material educativo
|
40
|
59
|
| Capacitações
|
|
|
|
Capacitação de profissionais de saúde que atendem
adolescentes
|
18
|
26
|
|
Capacitação de professores
|
31
|
46
|
|
Capacitação de outros profissionais
|
9
|
13
|
|
Capacitação de adolescentes multiplicadores para
desenvolverem ações dentro da escola
|
15
|
22
|
|
Capacitação de adolescentes multiplicadores para
desenvolverem ações em outros locais/instituições
|
10
|
15
|
| Outras
|
10
|
15
|
*Cada município podia dar
mais do que uma resposta
A tabela 1 mostra que a distribuição de preservativos e a
realização de palestras são as estratégias de prevenção mais
adotadas pelos municípios. A realização de oficinas, a produção
de material educativo e a capacitação de professores também são
estratégias adotadas por um número significativo deles.
Palestras
Dos
68 municípios, 55 (81%) realizam palestras nas escolas e 45 (66%) em
outros locais/instituições. A realização de palestras pode ser
considerada uma estratégia “clássica” para a prevenção das
DST/Aids entre os adolescentes. Nessa estratégia, um especialista da
área apresenta informações sobre os modos de transmissão das doenças
e sobre os métodos existentes para preveni-las. O público, por sua
vez, recebe as informações do especialista e procura esclarecer,
através de perguntas, possíveis dúvidas.
As
críticas a essa estratégia incluem a defesa de que a aprendizagem é
mais efetiva quando o conhecimento é construído pelo próprio
aprendiz, a partir de suas vivências. Aponta-se também que a
palestra é uma estratégia muito pontual. Nessa perspectiva,
defende-se que as pessoas não mudam o comportamento apenas por
receberem determinadas informações, e que a prevenção das DST/Aids
só pode ocorrer se houver mudança de hábitos, atitudes e crenças, e
essas mudanças não podem ser impostas.
Entretanto,
ao escolher as estratégias de prevenção, necessitamos considerar as
características da instituição e o contexto em que as ações se
inserem. Por exemplo, as palestra podem ser um recurso útil para
desenvolver ações de prevenção em uma instituição quando não há
profissionais disponíveis ou dispostos a realizá-las através de
oficinas ou profissionais de saúde com disponibilidade para realizar
ações contínuas nessa instituição. Por meio delas pode-se
aprofundar o contato com a instituição e sensibilizá-la para
desenvolver ações de DST/Aids para os adolescentes.
Oficinas
Dos
68 municípios, 32 (47%) realizam oficinas em escolas e 25 (37%) as
realizam em outras instituições/locais.
Em
oficinas costuma-se trabalhar com pequenos grupos que se reúnem em
determinado número de encontros periódicos. Geralmente, cada
encontro envolve, além de discussões sobre um tema, atividades lúdicas
e dinâmicas de grupo relacionadas a esse tema. Busca-se, além da
transmissão de informações sobre as doenças e formas de
preveni-las, discutir hábitos, atitudes, dúvidas e temores
relacionados à sexualidade e ao uso de drogas.
Para
conduzir as oficinas, o profissional, além de informações técnicas,
precisa estar aberto e disponível para escutar os conteúdos que
os adolescentes apresentam. Deve-se guiar pela idéia de que seu papel
principal é propiciar condições para que os adolescentes se
expressem de maneira livre. Isso significa fazer um esforço constante
para conseguir “colocar em suspensão” determinados valores e
preconceitos pessoais. A partir dessa perspectiva e por meio de
discussões sobre temas muito amplos, a adoção de práticas de
cuidado consigo acontece de maneira lenta e gradual.
Distribuição de
preservativos
Difundir
a idéia de sexo seguro pressupõe acesso aos preservativos. A partir
da tabela 1, percebemos que 79% dos municípios adotam a distribuição
como uma estratégia de prevenção, que ocorre em três contextos: a)
em palestras, eventos, festas, datas comemorativas etc., b) nos serviços
de saúde, c) nas escolas (dados não apresentados).
1.
A distribuição de preservativos em eventos atinge um grande número
de pessoas. Entretanto, é uma ação pontual, que não promove a
ampliação do acesso a esse insumo.
2. A
distribuição de preservativo nos serviços de saúde aposta na
autonomia do adolescente para buscar proteção. Ao mesmo tempo, promove
a inclusão desse adolescente na rede de atenção à saúde.
Entretanto, algumas medidas precisam ser adotadas para que essa estratégia
seja eficaz. É preciso sensibilizar e capacitar os profissionais da
rede para que acolham o adolescente. Por exemplo, alguns serviços de
saúde exigem que os pacientes menores de idade só sejam atendidos se
acompanhados dos pais, o que pode constranger o adolescente quando
recebem orientações ou preservativos.
3. A
distribuição de preservativos nas escolas ganhou novo impulso com o
lançamento do programa “Saúde e Prevenção nas Escolas”, da
Coordenação Nacional de DST/Aids. A vantagem dessa estratégia é
garantir que o preservativo esteja em um local que concentre muitos
adolescentes. Além disso, fortalece as ações de prevenção e educação
para a saúde, desenvolvidas pelas escolas. A distribuição de
preservativos na escola complementa as ações que visam promover o
acesso dos adolescentes aos serviços de saúde, já que há muitos que
não freqüentam mais as escolas.
Capacitações
Entre
as estratégias adotadas pelos municípios, 46% adotam a capacitação
de professores, 26% de profissionais de saúde e 22% capacitações
para adolescentes multiplicadores.
1.
Capacitação de
profissionais de escolas e de outras instituições que atendem
adolescentes
É
preciso considerar que os temas relacionados às DST/Aids são
delicados e que o profissional precisa deparar-se com questões
pessoais, preconceitos, e, ao mesmo tempo, encaminhar assuntos que serão
trazidos pelos adolescentes. Portanto, mais uma vez, apontamos a
importância de realizar capacitações contínuas para esses
profissionais, que incluam discussões periódicas sobre as ações
que estão sendo desenvolvidas.
2. Capacitação de
profissionais de saúde
A
capacitação dos profissionais de saúde para desenvolverem ações
de prevenção às DST/Aids também precisa ser contínua. Lidar com
temas como sexualidade e uso de drogas exige do profissional uma
reflexão constante sobre o próprio trabalho. Por isso, precisamos
garantir espaços periódicos de interlocução, discussão de casos e
acolhimento para os profissionais que desenvolvem as ações de prevenção.
É preciso compreender que capacitar um profissional não significa
apenas organizar eventos, mas também acompanhar de perto a maneira
como esses trabalhos são desenvolvidos.
Devemos
levar em consideração que promover o acesso dos adolescentes aos
serviços de saúde é uma das principais maneiras de prevenir as DST/Aids, de promover o acesso à testagem e à vacinação contra a
hepatite B e o acesso ao tratamento em abordagem sindrômica das DST.
Para isso, é necessário que os profissionais dos serviços de saúde
estejam preparados para receber o adolescente, para acolhê-lo, para
fornecer-lhe preservativos e outros insumos de prevenção e para
orientá-lo. Os profissionais de saúde dos serviços de atenção básica
são os que estão mais próximos dos locais de residência, estudo e
trabalho dos adolescentes. Nesse sentido, o ideal é que eles assumam,
em parceria com outras instituições como a escola, as associações
de bairro e as igrejas, a responsabilidade pelas ações diretas de
prevenção às DST/Aids.
(1)Tratamento imediato das DST a partir da identificação
dos sinais e sintomas apresentados pelo paciente
3.
Capacitação de
adolescentes multiplicadores
A
idéia subjacente à proposta de trabalhar com adolescentes
multiplicadores é a de que o jovem, por viver questões e
dificuldades “próprias da adolescência”, é capaz de compreender
os outros adolescentes. Para adotar esta estratégia é necessário:
-
Mapear os locais em que os adolescentes possam atuar e as
instituições governamentais e não-governamentais que possam ser
parceiras nesta ação. Procurar espaços em que as atividades possam
ser desenvolvidas. Decidir quais adolescentes serão os
multiplicadores.
-
Decidir de que maneira será estabelecido o vínculo com
os adolescentes multiplicadores. Serão remunerados? No caso dos
adolescentes que freqüentam a escola, a carga horária do trabalho
será compatível com os estudos? Como pedir autorização dos pais,
no caso de adolescentes menores de idade?
-
Oferecer capacitações, aulas, grupos de estudo e
estabelecer uma rotina de supervisões periódicas para os
adolescentes.
Produção de
materiais educativos
Quarenta
municípios (59%) produzem materiais educativos próprios voltados
para os adolescentes ou para os profissionais que trabalham com essa
população. Os materiais educativos podem ser uma ferramenta
interessante na execução das ações de prevenção, já que
possibilitam a transmissão de informações de maneira correta e
simples.
Bibliografia
recomendada
-
Ministério
da Saúde. Programa Nacional de DST/Aids. Manual
do Multiplicador Adolescente. Brasília: Ministério da Saúde,
2003.
-
Materiais
do Projeto “Prevenção Também se Ensina”, disponíveis em todas
as Escolas Estaduais do Estado de São Paulo.
-
“Antes
Durante e Depois: Gravidez na Adolescência”. Jogo produzido pelo
GTPOS. Para maiores esclarecimentos, ligue para GTPOS: (011)
3801-3691.
-
Protagonismo
Juvenil: caderno de atividades.
Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
-
Adolescentes Promotores de Saúde: uma
metodologia para capacitação.
Brasília: Ministério da Saúde, 2001.
-
Adolescentes
Fazendo Juntos: manual do facilitador.
Brasília: Governo do Distrito Federal, 2003.
-
Adolescentes Pensando
Juntos: manual do facilitador. Brasília: Governo
do Distrito Federal, 2003.
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