O I Curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (FOCA)
foi realizado, de 14 a 18 de março de 2005, no Centro de Controle
de Zoonoses (CCZ) de Guarulhos, pela Secretaria de Estado da Saúde de
São Paulo, com apoio da prefeitura de Guarulhos (PMG), do Conselho
Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP),
Instituto Técnico de Educação e Controle Animal (Itec), Instituto
Nina Rosa, World Society for the
Protection of Animals (WSPA), Associação Paulista de Auxílio
aos Animais (Apaa) e da ONG “No Caminho da Paz”.
A prefeitura de Guarulhos, por meio do seu CCZ, abraçou a proposta de
mudança da conduta do manejo de animais desde o seu inicio, sendo uma
das responsáveis pela concretização de tal curso.
Com o objetivo principal de capacitar recursos humanos para o manejo adequado de cães e gatos, durante as atividades de
captura, remoção, transporte, desembarque e internação nos CCZ,
visando diminuir os riscos à saúde dos funcionários envolvidos
nessas atividades, o bem-estar animal e a melhora da imagem desses órgãos
junto à comunidade, o curso contou com a participação de 27 agentes de controle de
zoonoses e 13 médicos veterinários dos municípios de Barueri,
Bauru, Botucatu, Diadema, Guarulhos e São Paulo, além de dez funcionários
da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), representando as regionais do Estado de São Paulo.
Durante os cinco dias de curso, foram discutidos temas sobre
comportamento de cães e gatos, comunicação corporal, componentes da
relação homem-animal, programas de controle de populações de cães
e gatos, manejo animal e apresentação de equipamentos apropriados,
captura e imobilização de cães e gatos, a importância de manejar
bem o animal, socialização e educação de cães e gatos, imagem dos
CCZ, envolvimento da comunidade, atividades educativas, eutanásia,
estresse dos funcionários e dos animais, a missão e a importância
do Oficial de Controle Animal (OCA) para a comunidade, prevenção de
mordeduras, definição de bem-estar animal em CCZ, parcerias com instituições, aspectos legais do controle animal, o elo entre a violência
humana e a crueldade animal, educação humanitária (respeito a todas
as forma de vida, principalmente à comunidade e aos animais),
valorização do funcionário como um profissional OCA. O curso foi
finalizado com uma prova para avaliação do aprendizado.
Coordenado pelas médicas veterinárias Adriana Vieira e Rita de
Cassia Garcia, da Coordenadoria de Controle de Doenças, da Secretaria
de Estado da Saúde de São Paulo, O primeiro curso FOCA contou com a
participação da oficial de controle animal de Fort Landardale, Flórida
(EUA), Joanne Roman; e dos médicos veterinários Nestor Calderon,
MSc., da Universidad de Sale, Colômbia, e especialista em
comportamento, bem-estar e bioética; Mariângela Freitas, também
psicóloga, especialista em bem-estar animal e consultora da WSPA;
Flavya Mendes de Almeida, MSc., consultora da WSPA, especialista em
controle e manejo de gatos; Cristina Magnabosco, diretora do CCZ de
Guarulhos; Daniel Aspis, da Divisão Técnica de Controle da Raiva da
DVS/Sameb de Barueri; Elizabeth
da Silva, assessora do CCZ de São Paulo; Jonas Lotufo Brant,
do CCZ de Botucatu; Jorge Moreira,
membro do Itec e diretor do Medicoveterinário.net; Luciana Hardt
Gomes, diretora do CCZ de São Paulo; Mônica Almeida,
coordenadora de Educação do Itec e vice-presidente da Apaa; Rogério
Chaccur Abou-Jamra, membro do Itec e diretor do Medicoveterinário.net; Stélio Pacca
Luna, da Unesp de Botucatu
e consultor do Itec; Vania Plaza Nunes,
do Daee de Jundiaí e da assessoria técnica do Instituto Nina
Rosa.
Novo paradigma
Desde a década de 70 o Brasil conta com a profissão de “laçadores”
ou “catadores de cães”, extremamente importante para o controle
da raiva transmitida por cães e, ainda hoje, necessária para a saúde
e bem-estar humano, animal e ambiental. Infelizmente, devido ao fato
da atividade ser realizada de modo violento desde o manejo nas ruas
– laçando os animais pelo pescoço, jogando-os dentro dos veículos
e os transportando soltos - até o descarregamento dos animais dentro
dos órgãos municipais, leva ao conflito entre funcionários e
sociedade.
Com esse estigma, os veículos (carrocinhas) que retiram animais das
ruas para evitar agravos ao ser humano, meio ambiente e outros animais
e, também, protegê-los, sempre foram extremamente criticados devido
à maneira violenta como a atividade era executada. Vários funcionários sofriam e sofrem diferentes tipos
de agressões e intimidações por parte das comunidades locais, em
diferentes áreas geográficas, colocando em risco as suas próprias
vidas.
Não há uma percepção da população sobre a importância da
atividade de captura em relação à saúde pública e ao bem-estar
animal. Graças a fatores relacionados à dinâmica populacional de cães
e gatos e à posse irresponsável de muitos proprietários destes
animais, há uma grande demanda pelo serviço de captura de animais
soltos em vias públicas. Alia-se a isto a falta de ações voltadas
à educação para a posse responsável de cães e gatos, ao controle
reprodutivo, a insuficiência de lares que acolham animais
abandonados e o desrespeito e falta de fiscalização adequada de
legislações instituídas em diferentes municípios.
O enfoque predominante do paradigma atual é o da saúde pública em
detrimento do bem-estar animal. Ambos devem caminhar juntos. São, por
vezes, antagônicos, mas necessariamente complementares. Atuar com visão
de saúde pública não negligenciando o sofrimento animal e de seres
humanos sensíveis à causa.
Por outro lado, os médicos veterinários responsáveis por essa
atividade não possuíam ferramentas suficientes para poder mudar essa
situação, uma vez que tal mudança dependia (e depende) da
conscientização da população quanto à importância tanto desses
profissionais como da atividade desenvolvida.
Com a intenção de mudar esse paradigma, e construir um novo conceito
deste profissional, havia necessidade de mudar o conceito de que “laçador”
é aquele que “laça os animais soltos em vias públicas e os leva
para o canil público” para “oficial de controle animal”, que,
antes de tudo, é um educador especializado em manejo e comportamento
animal.
Isto envolve uma mudança de atitude e de linguagem, assim como no
modo de captura de animais, de seu transporte e de sua manutenção e
manejo, quando de sua apreensão. A nova abordagem diz respeito a um
novo profissional que tem como atribuições a educação para a posse
responsável de cães e gatos, conquistando a confiança e o respaldo
popular. O agente deve mostrar que protege a comunidade, educando-a
para tal. Deve demonstrar sua importância, principalmente, respaldada
pela domiciliação dos animais e apontar as conseqüências da presença
de cães e gatos em vias públicas:
Diante disso, os participantes iniciaram o curso como “laçadores” e
concluiram como “oficiais de controle animal”, conscientes do seu importante papel
na promoção à saúde do ser humano, do animal e do meio ambiente,
por meio da educação e atividades de controle animal.
Com uma profissão tão importante, porém difícil e perigosa, os
oficiais de controle animal saíram
motivados, carregando, além do canudo com o diploma e o
distintivo no uniforme novo, ganho por ter finalizado o curso, e
a
certeza de que podem e devem fazer melhor.
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