Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272

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Abril, 2005   Ano 2   Número 16                                                                     retorna
I Curso de Formação de Oficiais de Controle Animal – FOCA

Adriana Vieira
Rita de Cassia Garcia
Assessoria Técnica
Coordenadoria de Controle de Doenças - SES/SP


O I Curso de Formação de Oficiais de Controle Animal (FOCA) foi realizado, de 14 a 18 de março de 2005, no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Guarulhos, pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, com apoio da prefeitura de Guarulhos (PMG), do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Instituto Técnico de Educação e Controle Animal (Itec), Instituto Nina Rosa, World Society for the Protection of Animals (WSPA), Associação Paulista de Auxílio aos Animais (Apaa) e da ONG “No Caminho da Paz”.

A prefeitura de Guarulhos, por meio do seu CCZ, abraçou a proposta de mudança da conduta do manejo de animais desde o seu inicio, sendo uma das responsáveis pela concretização de tal curso.


Com o objetivo principal
de capacitar recursos humanos para o manejo adequado de cães e gatos, durante as atividades de captura, remoção, transporte, desembarque e internação nos CCZ, visando diminuir os riscos à saúde dos funcionários envolvidos nessas atividades, o bem-estar animal e a melhora da imagem desses órgãos junto à comunidade, o curso contou com a participação de 27 agentes de controle de zoonoses e 13 médicos veterinários dos municípios de Barueri, Bauru, Botucatu, Diadema, Guarulhos e São Paulo, além de dez funcionários da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen), representando as regionais do Estado de São Paulo.

Durante os cinco dias de curso, foram discutidos temas sobre comportamento de cães e gatos, comunicação corporal, componentes da relação homem-animal, programas de controle de populações de cães e gatos, manejo animal e apresentação de equipamentos apropriados, captura e imobilização de cães e gatos, a importância de manejar bem o animal, socialização e educação de cães e gatos, imagem dos CCZ, envolvimento da comunidade, atividades educativas, eutanásia, estresse dos funcionários e dos animais, a missão e a importância do Oficial de Controle Animal (OCA) para a comunidade, prevenção de mordeduras, definição de bem-estar animal em CCZ, parcerias com instituições, aspectos legais do controle animal, o elo entre a violência humana e a crueldade animal, educação humanitária (respeito a todas as forma de vida, principalmente à comunidade e aos animais), valorização do funcionário como um profissional OCA. O curso foi finalizado com uma prova para avaliação do aprendizado.

Coordenado pelas médicas veterinárias Adriana Vieira e Rita de Cassia Garcia, da Coordenadoria de Controle de Doenças, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, O primeiro curso FOCA contou com a participação da oficial de controle animal de Fort Landardale, Flórida (EUA), Joanne Roman; e dos médicos veterinários Nestor Calderon, MSc., da Universidad de Sale, Colômbia, e especialista em comportamento, bem-estar e bioética; Mariângela Freitas, também psicóloga, especialista em bem-estar animal e consultora da WSPA; Flavya Mendes de Almeida, MSc., consultora da WSPA, especialista em controle e manejo de gatos; Cristina Magnabosco, diretora do CCZ de Guarulhos; Daniel Aspis, da Divisão Técnica de Controle da Raiva da DVS/Sameb de Barueri; Elizabeth da Silva, assessora do CCZ de São Paulo; Jonas Lotufo Brant, do CCZ de Botucatu; Jorge Moreira, membro do Itec e diretor do Medicoveterinário.net; Luciana Hardt Gomes, diretora do CCZ de São Paulo; Mônica Almeida, coordenadora de Educação do Itec e vice-presidente da Apaa; Rogério Chaccur Abou-Jamra, membro do Itec e diretor do Medicoveterinário.net; Stélio Pacca Luna, da Unesp de Botucatu e consultor do Itec; Vania Plaza Nunes, do Daee de Jundiaí e da assessoria técnica do Instituto Nina Rosa.
 

Novo paradigma

Desde a década de 70 o Brasil conta com a profissão de “laçadores” ou “catadores de cães”, extremamente importante para o controle da raiva transmitida por cães e, ainda hoje, necessária para a saúde e bem-estar humano, animal e ambiental. Infelizmente, devido ao fato da atividade ser realizada de modo violento desde o manejo nas ruas – laçando os animais pelo pescoço, jogando-os dentro dos veículos e os transportando soltos - até o descarregamento dos animais dentro dos órgãos municipais, leva ao conflito entre funcionários e sociedade.

Com esse estigma, os veículos (carrocinhas) que retiram animais das ruas para evitar agravos ao ser humano, meio ambiente e outros animais e, também, protegê-los, sempre foram extremamente criticados devido à maneira violenta como a atividade era executada.
Vários funcionários sofriam e sofrem diferentes tipos de agressões e intimidações por parte das comunidades locais, em diferentes áreas geográficas, colocando em risco as suas próprias vidas.

Não há uma percepção da população sobre a importância da atividade de captura em relação à saúde pública e ao bem-estar animal. Graças a fatores relacionados à dinâmica populacional de cães e gatos e à posse irresponsável de muitos proprietários destes animais, há uma grande demanda pelo serviço de captura de animais soltos em vias públicas. Alia-se a isto a falta de ações voltadas à educação para a posse responsável de cães e gatos, ao controle reprodutivo, a insuficiência de lares que acolham animais abandonados e o desrespeito e falta de fiscalização adequada de legislações instituídas em diferentes municípios.

O enfoque predominante do paradigma atual é o da saúde pública em detrimento do bem-estar animal. Ambos devem caminhar juntos. São, por vezes, antagônicos, mas necessariamente complementares. Atuar com visão de saúde pública não negligenciando o sofrimento animal e de seres humanos sensíveis à causa.


Por outro lado, os médicos veterinários responsáveis por essa atividade não possuíam ferramentas suficientes para poder mudar essa situação, uma vez que tal mudança dependia (e depende) da conscientização da população quanto à importância tanto desses profissionais como da atividade desenvolvida.

Com a intenção de mudar esse paradigma, e construir um novo conceito deste profissional, havia necessidade de mudar o conceito de que “laçador” é aquele que “laça os animais soltos em vias públicas e os leva para o canil público” para “oficial de controle animal”, que, antes de tudo, é um educador especializado em manejo e comportamento animal.


Isto envolve uma mudança de atitude e de linguagem, assim como no modo de captura de animais, de seu transporte e de sua manutenção e manejo, quando de sua apreensão. A nova abordagem diz respeito a um novo profissional que tem como atribuições a educação para a posse responsável de cães e gatos, conquistando a confiança e o respaldo popular. O agente deve mostrar que protege a comunidade, educando-a para tal. Deve demonstrar sua importância, principalmente, respaldada pela domiciliação dos animais e apontar as conseqüências da presença de cães e gatos em vias públicas:


Diante disso, os participantes iniciaram o curso como “laçadores” e concluiram como “oficiais de controle animal”, conscientes do seu importante papel na promoção à saúde do ser humano, do animal e do meio ambiente, por meio da educação e atividades de controle animal.

Com uma profissão tão importante, porém difícil e perigosa, os oficiais de controle animal saíram motivados, carregando, além do canudo com o diploma e o distintivo no uniforme novo, ganho por ter finalizado o curso, e  a certeza de que podem e devem fazer melhor.


Coordenadoria de Controle de Doenças