Introdução
A difilobotríase
é uma doença comum em áreas com hábito alimentar de ingestão de
peixes crus ou mal-cozidos. Há registro de casos na Europa, Ásia, América
do Norte e América do Sul. Na América do Norte há identificação
de focos endêmicos em populações de esquimós provenientes do
Alasca e Canadá. Nos Estados Unidos a difilobotríase é rara, porém,
há relato de casos na região dos Grandes Lagos e na Costa Oeste. Na
América do Sul há registro de casos de difilobotríase veiculada por peixes de água doce (D.
latum) ou de água salgada
(D. pacificum) no Chile, Peru e Argentina(1,2,3,4,5,6,7).
A maioria das infecções é
assintomática. Nas infecções sintomáticas são mais freqüentes
dor e desconforto abdominal, flatulência, diarréia e, menos freqüentemente,
vômito e perda de peso, podendo ocorrer anemia megaloblástica pela
interferência da parasitose na absorção de vitamina B12 pelo
hospedeiro. O tratamento é feito com praziquantel (Cestox®), na dose
de 10 mg/kg de massa corpórea em dose única, podendo ser necessária
administração da vitamina B12 para correção da anemia. Infecções
severas podem resultar em obstrução intestinal ou do ducto biliar
com sintomas tóxicos(1,2).
O Diphyllobothrium
spp é um cestóide, conhecido como um dos maiores parasitas
intestinais do homem e como a "tênia" do peixe. Diversas
espécies de Diphyllobothrium
podem parasitar os seres humanos, mas na América do Sul estes casos
estão restritos a duas espécies: o D.
pacificum e D. latum, sendo esta a mais prevalente.
O parasita pode persistir no
intestino humano por mais de dez anos, instalando-se no intestino
delgado e podendo atingir até dez metros de comprimento, com mais de
3.000 proglotes. Os ovos são liberados pelas proglotes (que são
estruturas de reprodução hermafroditas) e eliminados nas fezes do
hospedeiro. Em contato
com a água, e dependendo da temperatura, de oito dias a várias
semanas o embrião contido no ovo diferencia-se em coracídios, que
então saem dos ovos. Estes, quando ingeridos por pequenos crustáceos
(Cyclops e Diaptomus),
transformam-se em larvas procercóides. Os peixes ingerem estes crustáceos
que contêm a larva.
As larvas podem migrar para a
musculatura do peixe e se desenvolverem em larvas plerocercóides. A
contaminação de um peixe de maior tamanho pode ocorrer quando o
mesmo se alimenta de um peixe de menor tamanho parasitado. A infecção
em humanos ocorre quando são ingeridos peixes crus, defumados em temperatura inadequada
ou
mal-cozidos que contêm a larva infectante. A larva plerocercóide tem
dimensões reduzidas (máximo de 15mm x 2mm) e coloração semelhante
àquela do tecido conjuntivo dos peixes, tornando-a de difícil detecção
quando do preparo do pescado em restaurantes.
Uma vez ingerida pelo homem a larva atinge o estágio adulto. O tempo
decorrido entre a ingestão da larva e a detecção de ovos nas fezes
do hospedeiro é de 5 a 6 semanas. Diversos mamíferos, além do homem,
e aves podem ser infectados(1)
(figura 1).
Figura
1
- Ciclo de vida do Diphyllobothrium
latum

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)
O
diagnóstico da parasitose é laboratorial, feito a partir de exames
microscópicos de amostras de fezes ou das proglotes eliminadas nas
fezes. O número de ovos por grama de fezes usualmente é elevado, e
podem ser demonstrados sem técnicas especificas de concentração.
Exame das proglotes é de grande valia para o diagnóstico (figuras 2,
3, 4 e 5)(1).
Figura
2
- A, B: Ovos de Diphyllobothrium latum (tamanho: de 58 mm a 76 mm
por 40 mm a 51 mm)
A
B
Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)
Figura 3 - C, D:
Ovos de Diphyllobothrium latum
(tamanho: de 58 mm a 76 mm
por 40 mm a 51 mm)
C

D

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)
Figura 4 - E: Proglotes de Diphyllobothrium
latum
E

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)
Figura
5
- F: Proglotes de Diphyllobothrium latum (tamanho: 2 mm a 4 mm de comprimento por 10
mm a 12 mm de largura)
F

Fonte: CDC (http://www.dpd.cdc.goc/dpdx)
No Estado de São Paulo e no Brasil os sistemas de vigilância epidemiológica (SVE) não haviam registrado casos autóctones esporádicos ou surtos de
Diphyllobothrium até o ano de 2003. Este trabalho tem o objetivo de relatar os casos de difilobotríase recentemente notificados à Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar, do Centro de Vigilância Epidemiológica (DDTHA/CVE), relacionados ao consumo de peixes crus, apresentar as características clínicas e epidemiológicas do parasita e os resultados preliminares da investigação epidemiológica desencadeada. Tem também como objetivo a divulgação das providências e recomendações para o conhecimento da prevalência da doença e estabelecimento de medidas concretas de controle e prevenção.
Material e método
Casos confirmados laboratorialmente através da análise de amostras de fezes com detecção de ovos ou proglotes do parasita, notificados espontaneamente por laboratórios, pacientes e outros serviços médicos, no final do ano de 2004 e primeiro trimestre de 2005, deram início à investigação epidemiológica.
Esta investigação encontra-se em sua primeira etapa, correspondente a um estudo descritivo dos casos notificados, levantamento dos elos comuns epidemiológicos entre eles, alerta aos laboratórios e médicos para a notificação de casos novos, análise laboratorial do alimento consumido por uma paciente, enviado espontaneamente para o Instituto Adolfo Lutz Central, bem como inspeções sanitárias aos locais de consumo e fornecedores de peixe, para avaliação dos fatores de risco envolvidos na transmissão da doença, coletas e análises sistematizadas das espécies de peixes e crustáceos utilizadas no preparo de pratos da culinária japonesa.
Além disso, foram desencadeados alertas aos órgãos federais e estadual, para providências em seus âmbitos, como a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento de São Paulo (SEAA/SP), o Centro de Vigilância Sanitária (CVS/SES-SP), as Vigilâncias Epidemio-lógica e Sanitária do Município de São Paulo e as demais Regionais de Saúde da Grande São Paulo e Interior do Estado, para ações em suas áreas de abrangência e respectivos municípios.
Notificaram casos à DDTHA/CVE o Laboratório Fleury - Centro de Medicina Diagnóstica, o Serviço de Parasitologia do Hospital das Clínicas da
FMUSP e dois pacientes.
A investigação sanitária dos restaurantes, relatados como freqüentados pelos pacientes, está a cargo da Vigilância Sanitária do Município de São Paulo, sendo que as amostras de alimentos coletadas na inspeção sanitária serão analisadas pelo IAL Central. A fiscalização dos fornecedores está no âmbito dos órgãos da Agricultura.
Resultados e discussão
No final de 2004, a DDTHA/CVE recebeu a notificação do Fleury - Centro de Medicina Diagnóstica sobre a existência de casos de
Diphyllobothrium latum, associados ao consumo de peixes crus(8). Estes dados, complementados pelo laboratório em questão(9,10) em março de 2005, apontavam a existência de 21 casos no período de março de 2004 a março de 2005, relacionados ao consumo de
sushis/sashimis em restaurantes japoneses e "self-services" da cidade de São Paulo.
Ainda na primeira quinzena de março de 2005, a DDTHA/CVE recebeu a notificação de uma
paciente(11), que consumia sushis/sashimis cerca de três vezes por semana, infectada também pelo
D. latum, identificado pelo Serviço de Parasitologia do Hospital das Clínicas/FMUSP, com descrição detalhada do quadro clínico, início dos sintomas e duração da doença, resultados dos exames de fezes e hemograma, nome dos locais onde consome o alimento (restaurante e mercado), tipos de peixes, dentre entre eles, o salmão importado do Chile. Além disso, a paciente forneceu sobras do salmão recentemente consumido, que foram encaminhadas para o setor de microbiologia/microscopia do Instituto Adolfo Lutz Central para análise.
Mais um paciente, examinado por um hospital particular, notificou a identificação do parasita, cujos dados estão ainda sendo levantados. Dessa forma, foram notificados 23 casos do parasita, identificados em um período de um ano, dentre eles, 11 casos identificados no primeiro trimestre de 2005.
As notificações feitas por esses laboratórios(9,12) mostram que no período de 1998 a 2003 foram registrados apenas dois casos de pacientes estrangeiros, provenientes da Europa, considerados assim não-autóctones(9,12,13).
Estes dados mostram uma importante prevalência de difilobotríase autóctone no período de ano, de poucas fontes notificantes, sugerindo a hipótese de, inclusive, tratar-se de um surto, não apenas pela não existência de registros, no período anterior a 2004, nos sistemas oficiais de vigilância, mas pela fonte comum entre eles, o salmão, importado por um poucos fornecedores.
Não se pode descartar, entretanto, a possibilidade de que espécies de peixes paulistas ou da costa brasileira, utilizadas no preparo de sushis e sashimis, estejam contaminadas, fato que somente será conhecido após a obtenção de maiores dados nos estudos epidemiológicos, investigações sanitárias e testes laboratoriais em andamento.
Conclusões e recomendações
O trabalho, em desenvolvimento, exige ainda várias tarefas conjuntas com os órgãos de governo que atuam na área de vigilância epidemiológica e sanitária no controle das doenças veiculadas por alimentos e com os laboratórios e serviços médicos, públicos e particulares, para a conclusão da investigação.
Medidas estão sendo desencadeadas, como averiguação dos restaurantes freqüentados pelos pacientes, com levantamento das espécies, fornecedores, procedência e coleta de amostras de peixes ou crustáceos; alerta à população sobre os riscos de consumo de peixes crus; além de comunicado aos laboratórios e serviços médicos para notificação dos casos.
Dimensionado o problema, recomenda-se aos órgãos de fiscalização sanitária a aplicação de medidas cautelares aos restaurantes com culinária japonesa e fornecedores, com a finalidade de se prevenir o consumo de peixes crus suspeitos de contaminação.
Um fluxo de encaminhamento e análises de amostras de fezes de casos suspeitos e de alimentos, que sejam detectados a partir das investigações em curso ou dos comunicados aos laboratórios e serviços médicos e do alerta à população, está sendo organizado para que o Instituto Adolfo Lutz Central e suas Re-gionais possam atender à nova demanda gerada.
Cabe destacar que a DDTHA/CVE vem implantando um sistema de vigilância ativa no Estado de São Paulo, similar ao FoodNet/Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Estados Unidos, que consiste em notificação e busca ativa de patógenos emergentes ou reemergentes (bactérias, vírus e parasitas) relacionados
a doenças transmitidas por alimentos, identificados por laboratórios públicos e particulares, que mostra ser, cada vez mais, de grande valia para a detecção de novas doenças e tendências e para a conclusão de surtos em que a investigação tradicional não conseguiu identificar a via de transmissão e/ou o agente etiológico(14,15,16).
Estudos epidemiológicos analíticos poderão ser ainda desenvolvidos, dependendo dos resultados dessa primeira etapa. Neste sumário de vigilância apresentamos os resultados preliminares de um estudo descritivo, com o objetivo de divulgar à comunidade
médico-científica e às equipes de vigilâncias epidemiológica e sanitária o trabalho em desenvolvimento, para esclarecer a expressiva prevalência detectada a partir de algumas fontes espontâneas de notificação e se exercer o controle da cadeia de transmissão do provável surto de difilobotríase autóctone na cidade de São Paulo.
Referências
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Control and Prevention. Diphyllobothrium
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Janeiro (RJ): Escola Nacional de Saúde Pública; 2002.
8.
Fleury - Centro de Medicina Diagnóstica. Ofício sem número,
datado de 16 de setembro de 2004, transmitido por fax, assinado por
dr. Jorge L. M. Sampaio [documento de notificação], São Paulo,
setembro de 2004.
9.
Fleury - Centro de Medicina Diagnóstica. Ofício sem número,
datado de 10 de março de 2005, transmitido por fax, assinado por Dr.
Jorge L. M. Sampaio [documento de notificação], São Paulo, março
de 2005.
10.
Fleury - Centro de
Medicina Diagnóstica. E-mail
notificando mais um caso em 19/3/05, enviado por dr. Jorge L. M.
Sampaio [documento de notificação], São Paulo, março de 2005.
11.
Relatório da paciente M.R.S., datado de 11 de fevereiro de
2005, entregue à DDTHA/CVE em 10/3/05 [documento de notificação], São
Paulo, março de 2005.
12.
Notificação do Serviço de Parasitologia da Divisão de
Laboratório Central, Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina
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13.
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In: Anais do XV Congresso Latino-Americano de Parasitologia; 2001; São
Paulo, Brasil. Rio de Janeiro: Jornal Brasileiro de Patologia; 2001.
14.
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Centro de Vigilância Epidemiológica. Vigilância Ativa de Doenças
Transmitidas por Alimentos - Normas e Instruções. São Paulo:
Secretaria de Estado da Saúde; 2003.
15.
Centers for Disease Control
and Prevention. CDC's Emerging Infections Program - Foodborne Diseases
Active Surveillance Network (FoodNet) [acessado em março de
2005][online]. Disponível da URL: http://www.cdc.gov/foodnet/what_is.htm
16.
Sobel J. Novas Tendências em Vigilância das
Doenças Transmitidas por Alimentos e Segurança Alimentar: Vigilância
Ativa e Epidemiologia Molecular. Rev CIP 1998; 1(2):20-26.
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