Introdução
A vigilância epidemiológica da
diarréia aguda é feita, no Estado de São Paulo, através de um
programa de vigilância ativa, a Monitorização da Doença Diarréica
Aguda (MDDA), implantada em unidades de saúde sentinela na maior
parte dos municípios, a partir do ano 2000.
No município de Campinas este programa foi instituído apenas a
partir da segunda semana de julho de 2004, fato que contribuiu para
estimular e aumentar a notificação de diarréia por parte dos
profissionais de saúde à Vigilância Epidemiológica e para a
construção, ao longo do tempo, da tendência da doença para detecção
precoce de surtos e epidemias.
Entre julho a outubro de 2004 (SE 28 a 39), foram registrados pelo
programa 3.250 casos de diarréia, sendo que dentre os 203 casos
testados pelo IAL Central, 119 (59%) foram positivos para rotavírus.
Outros casos avaliados por laboratórios de hospitais notificantes de
Campinas, porém não participantes do programa de MDDA, mostraram
também alta positividade para o rotavírus.
Do ponto de vista clínico, a diarréia, principal sintoma das doenças
transmitidas por água e alimentos, manifesta-se de diversas formas,
com diferentes níveis de gravidade, podendo ser causada por uma
imensa variedade de agentes etiológicos. No caso do rotavírus, o
quadro clínico varia desde a presença de sintomas brandos de diarréia
líquida, com tempo de duração
limitado, até sintomas graves, com diarréia intensa, febre e vômitos,
seguidos de desidratação, podendo levar a óbito, principalmente
crianças menores de 2 anos. Há também formas assintomáticas que
contribuem para a maior disseminação da doença, principalmente em
crianças que freqüentam creches, pois, ao não apresentarem
sintomas, não são afastadas do convívio nesses espaços fechados,
favorecendo a continuidade da transmissão.
Nos dias 23 e 24 de setembro uma equipe, integrada por
membros do programa EPISUS/CVE, do PAP VE DTA/DDTHA/CVE e da equipe de
vigilância do Município de Campinas, realizou uma investigação de
campo, para a identificação de elos epidemiológicos entre os casos
de diarréia para confirmação ou não da ocorrência de surto, detecção
dos fatores de risco envolvidos na transmissão do agente, bem como
para estabelecer outras medidas de orientação à população e aos
profissionais de saúde em relação aos métodos de controle e prevenção
da enfermidade.
Material e método
A investigação constou de uma
primeira análise da curva epidêmica da diarréia, construída com os
dados fornecidos pelo programa de MDDA e de notificações espontâneas
feitas por alguns hospitais importantes do município no atendimento
à doença.
Devido à ausência de dados sistemáticos
anteriores que pudessem indicar o comportamento da doença no Município,
optou-se pela realização de um estudo de coorte retrospectiva,
selecionando-se quatro prédios de um determinado conjunto
habitacional, devido à relevância do número de casos ocorridos no
local.
Definição de caso (doente): indivíduos residentes nos blocos
B, D, G e I do conjunto habitacional Primavera I, Jardim São José,
localizado no Município de Campinas, que apresentaram diarréia no
período compreendido entres as semanas epidemiológicas 34 e 38 (22
de agosto a 25 de setembro), com a presença ou não de outros
sintomas, como vômitos, febres e cólicas abdominais, entre outros.
Definição de controle (não-doente): indivíduos residentes nos blocos B, D, G e I do conjunto
habitacional Primavera I, Jardim São José, localizado no Município
de Campinas, que não tenham apresentado diarréia tanto no mês
anterior ao período compreendido entre as semanas epidemiológicas 34
e 38 como durante este período.
Foi aplicado um questionário,
desenhado especificamente para o estudo, a todos os indivíduos que
contemplassem as definições de caso
ou de controle estabelecidas.
Os questionários foram aplicados nos dias 23 e 24 de setembro pela
equipe envolvida, com o auxilio de três agentes comunitários e duas
enfermeiras, uma do distrito Sul de Campinas e outra da Covisa/SMS
Campinas.
Nos blocos I e G, onde foram
aplicados os questionários no dia 23, foi realizada revisita no dia
24, em períodos diferentes, nos domicílios onde não foi possível
encontrar anteriormente os moradores. Nos blocos B e D, onde os
questionários foram aplicados no dia 24, a revisita aos indivíduos não
encontrados foi realizada pelas agentes comunitárias na semana
seguinte. Assim foram realizadas pelo menos duas tentativas para
encontrar todos moradores.
Não foram encontrados casos com
diarréia no momento das entrevistas, não tendo, por isso, sido
coletadas novas amostras de fezes.
Os questionários foram processados
e analisados estatisticamente através do software EPI INFO 2000 CDC/OMS,
2000.
Resultados e discussão
Na
análise dos dados de MDDA e das notificações espontâneas
observou-se um aumento do número de casos de diarréia a partir da
semana epidemiológica 31 (1 a 7/8), que se manteve até a semana 37
(12 a 18/9), conforme figura 1. Entretanto, devido à recente implantação
do programa, o Município não dispunha de instrumento para avaliação
de casos anteriores ao período que permitisse comprovar que o aumento
seria devido a um surto ou pela maior sensibilidade de captação dos
casos pelo sistema de vigilância epidemiológica.
Figura
1 – Distribuição dos
casos de diarréia, segundo a fonte de notificação (MDDA e outras
fontes), no Município de Campinas, SP, no período entre as semanas
28 e 39 do ano de 2004

Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
A doença diarréica apresentou-se
disseminada por todo o Município de Campinas, com os maiores
coeficientes de incidência no distrito Sul (392,66 casos/100.000
habitantes) e no distrito Noroeste (254,70 casos/100.000 habitantes)
(figura 2).
Figura
2 – Distribuição dos
casos de diarréia por coeficientes de incidência por 100.000
habitantes, segundo o distrito de atendimento no Município de
Campinas, SP, no período entre as semanas 28 e 39 do ano de 2004

Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
Em relação à faixa
etária, 44,37% dos casos ocorreram em crianças entre 1 e 4 anos, porém,
ao se levar em conta as taxas de incidência, a faixa etária mais
atingida foi a de menores de 1 ano, como mostra a figura 3.
Figura 3 –
Distribuição dos casos de diarréia (por 100.000 habitantes),
segundo faixa etária, no Município de Campinas, no período entre
as semanas epidemiológicas 28 e 39 do ano de 2004

Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
No estudo de coorte retrospectiva
foram entrevistados 118 indivíduos, sendo 14 doentes e 104 não-doentes.
A distribuição dos entrevistados de acordo com os blocos pode ser
observada pela tabela 1, sendo que o Bloco I apresentou a maior taxa
de ataque, de 22,2%.
Tabela
1 – Distribuição dos
entrevistados, de acordo com o bloco de residência e taxa de ataque
(%) dos casos de diarréia, no Município de Campinas, SP, no período
entre as semanas epidemiológicas 28 e 39 do ano de 2004
|
Bloco
|
N.º de entrevistas
|
N.º doentes encontrados
|
Taxa de Ataque (%)
(TA)
|
|
B
|
25
|
2
|
8,0
|
|
D
|
31
|
2
|
6,45
|
|
G
|
26
|
2
|
7,7
|
|
I
|
36
|
8
|
22,2
|
|
Total
|
118
|
14
|
11,9
|
Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
Em relação à renda dos
entrevistados, foi encontrada taxa de ataque mais elevada no grupo de
indivíduos que apresentavam renda entre dois e três salários mínimos
e no grupo de maior que cinco salários (tabela 2).
Tabela
2 – Distribuição dos
entrevistados, segundo a renda mensal (em salários mínimos) e taxa
de ataque (%) dos casos de diarréia, no Município de Campinas, SP,
no período entre as semanas epidemiológicas 28 e 39 do ano de 2004
|
Renda
|
N.º de entrevistas
|
N.º doentes encontrados
|
Taxa de Ataque (%)
(TA)
|
|
Até 1
|
5
|
0
|
-
|
|
Ate 2
|
33
|
6
|
18,2
|
|
Até 3
|
22
|
5
|
22,7
|
|
De 3 a 5
|
35
|
1
|
3,0
|
|
Mais de 5
|
9
|
2
|
22,2
|
|
Ignorado
|
14
|
0
|
-
|
|
Total
|
118
|
14
|
11,9
|
Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
Dentre os entrevistados que tiveram
diarréia no período selecionado, oito (57,1%) apresentaram cólicas
abdominais, sete (50%) apresentaram vômitos e seis (42,9%), náuseas.
O número de evacuações de diarréia variou de 4 a 9 por dia (média
= 5,5 evacuações/dia; mediana = 5 evacuações/dia). A duração da
diarréia variou de 2 a 8 dias (média = 4,42 dias; mediana = 4 dias).
Em relação ao tratamento, três (21,4%) dos doentes receberam
antibioticoterapia, sete (50%) receberam hidratação intravenosa e
sete (50%) receberam sais para tratamento em casa. Quatro pacientes
(28,6%) necessitaram de hospitalização. Apenas um (7,7%) dos
pacientes apresentou recidiva do quadro diarréico após cinco dias do
término do quadro inicial.
Dentre os fatores de risco
pesquisados neste estudo, o de maior relevância estatística foi o contato
prévio com caso de diarréia, que apresentou TA = 47,61% [10
doentes/21 expostos]; RR =11,54; Intervalo de Confiança (IC) de 95% =
4,00 – 33,30; teste de Fisher = 0,000002; p<0,005, seguido do uso
de mamadeira com TA =66,6% [4 doentes/6 expostos]; RR = 7,46;
Intervalo de Confiança (IC) de 95% = 3,29 – 16,92; teste de Fisher
= 0,001; p<0,005 e desinfecção inadequada de verduras com TA = 25,0% [10 doentes/40
expostos]; RR = 4,87; Intervalo de Confiança (IC) de 95% = 1,67 –
14,57 ; teste de Fisher = 0,002; p<0,005
(tabela 3).
Tabela 3 – Análise dos fatores de risco que possam ter contribuído
para o surto de diarréia investigado no conjunto habitacional
Primavera I, Campinas, SP

Fonte: DDTHA-CVE-SES/SP
No conjunto habitacional escolhido
pelo critério de relevância de casos de diarréia notificados, não
havia nenhum doente com amostras de fezes testadas para quaisquer patógenos.
Pelo fato de o programa de MDDA ser incipiente, não foi possível à
equipe da vigilância de Campinas selecionar os casos positivos para
rotavírus pelos seus endereços, para se aplicar o estudo em bairro
com relevância de casos positivos para o patógeno em questão. Como
no momento das entrevistas nos domicílios não foram encontrados
casos ainda com diarréia ou dentro do período compatível com a
eliminação do vírus suspeito, ou mesmo de bactérias, a pesquisa do
agente etiológico ficou prejudicada.
Conclusões e recomendações
As características do quadro clínico,
a faixa etária de menores de 1 ano mais atingida, a taxa de ataque da
diarréia do conjunto habitacional, o contato pessoa-a-pessoa,
evidenciado pelo estudo epidemiológico como um elo importante entre
os casos, aliados à alta positividade para rotavírus dos demais
casos aparentemente esporádicos, ocorridos por todo o Município de
Campinas, mostram que há indícios de que ocorreu de fato um surto de
diarréia neste município e de que o agente etiológico provável foi
o rotavírus.
Cabe ressaltar que a avaliação
dos dados de MDDA para o conjunto do Estado de São Paulo,
especialmente nas regiões de saúde onde o programa está implantado
desde o ano 2000 e apresenta bom desempenho, mostrou alterações
importantes do comportamento da diarréia, com elevações
significativas de casos, no mesmo período do episódio ocorrido em
Campinas. É importante destacar, também, que de julho a outubro de
2004 as temperaturas foram amenas ou frias e o clima extremamente seco
(condições geralmente relacionadas, na literatura especializada,
como favoráveis à maior disseminação do rotavírus), tendo sido
detectada também alta positividade para rotavirus em amostras
testadas laboratorialmente, provenientes de outras regiões do Estado.
A investigação do surto em
Campinas aponta, ainda, a necessidade de que a MDDA seja implantada de
fato em todas as unidades sentinela do município, isto é, nas
unidades representativas do atendimento à doença diarréica, e que
seus dados sejam enviados aos diversos níveis de vigilância do SUS
(Sistema Único de Saúde) com regularidade, para que as análises do
comportamento da doença sejam feitas permanentemente e se possa, a
partir delas, detectar e investigar adequadamente e oportunamente
surtos ou epidemias.
A detecção de picos de diarréia
nos gráficos de acompanhamento semanal e a ocorrência de casos
graves indicam a necessidade de que, junto à coleta de amostras de
fezes para os testes laboratoriais, obtenham-se os dados de identificação
dos casos (contidos nos formulários de registro do programa), para
que a Vigilância Epidemiológica possa delinear com mais precisão o
tipo de investigação a ser realizada.
Tanto para a diarréia em geral
como para a diarréia por rotavírus é importante intensificar as
medidas de educação em saúde para a população, esclarecendo-a
sobre os cuidados gerais e medidas de higiene.
Pelas características epidemiológicas
do (patógeno) rotavírus sabe-se hoje que as medidas de higiene e
saneamento, ainda que extremamente importantes para a redução da
morbi-mortalidade da diarréia, não têm sido suficientes para a
prevenção da diarréia por rotavírus, sendo que o desenvolvimento
de uma vacina é a perspectiva para a diminuição da gravidade e o
controle mais eficaz da doença diarréica.
Dessa forma, consolidar o programa
de MDDA em todos os municípios faz-se extremamente importante também
para o acompanhamento futuro da eficácia de vacina que venha a ser
introduzida no calendário de vacinação.
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