Informe Mensal sobre Agravos à Saúde Pública   ISSN 1806-4272

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Fevereiro, 2005   Ano 2   Número 14                                                                     retorna
Tsunami na Ásia: Um Informe sob a Óptica da Saúde Pública

Vilma P. Gawryszeski e Neuma T. R. Hidalgo
Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor Alexandre Vranjac”

 

Em 26 de dezembro de 2004, uma série de terremotos, que chegaram a atingir 8.9 graus na escala Richter, cujo epicentro foi na região noroeste de Sumatra, Indonésia, provocou o surgimento de ondas gigantes (Tsunamis) que trouxeram grande destruição aos países localizados na costa da Ásia. Vilas e cidades inteiras foram devastadas, algumas delas desapareceram. De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a água do mar, movendo-se em alta velocidade, deixou 214.344 mortos, 142.079 desaparecidos e mais de dois milhões de pessoas desabrigadas(1) (ver quadro no final do texto).

Tais números colocam este fenômeno como uma das maiores tragédias da história recente da humanidade. Cabe ressaltar que, numa calamidade com tais proporções, é possível que nunca se saiba o real número de vítimas. Adicionalmente, pelo fato de vários locais atingidos serem considerados paraísos turísticos e em função do período de férias, estima-se que povos de mais de 40 países tenham sido atingidos, inclusive do Brasil.

A quase totalidade das mortes foi decorrente de causas externas, ou mais precisamente, afogamentos e lesões, podendo ser codificadas na categoria de Exposição às forças da natureza, de acordo com a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, Décima Revisão2. Por esta razão, e pelas inúmeras repercussões que estes fenômenos determinam à saúde das populações atingidas, o Grupo Técnico de Prevenção de Acidentes e Violências, do Centro de Vigilância Epidemiológica, elaborou este informe, cujo objetivo é fornecer uma visão geral sobre o impacto do Tsunami na saúde das populações atingidas.

Por tratar-se de um fenômeno relativamente raro, considerou-se que o conhecimento do que aconteceu e as respostas que puderam ser dadas seria uma contribuição na formulação de estratégias da área da saúde para responder a situações de emergência em nosso meio. A base deste informe são as informações disponibilizadas pela OMS. Em razão de ser um breve resumo, não havendo possibilidade de estar relatando todos os aspectos do desastre, recomenda-se visitar o site(3).

Problemas imediatos

A preocupação imediata era com o cuidado às lesões (incluindo prevenção de possíveis infecções secundárias) e fornecimento adequado de água e alimentos. Um fator agravante encontrado foi que, em muitos locais, os hospitais e serviços de saúde haviam sido destruídos e/ou os profissionais de saúde estavam mortos. Havia, também, a necessidade de identificar e enterrar as vítimas fatais. Foram criados os chamados hospitais de campo e algumas nações enviaram profissionais de saúde especializados em atendimento terciário, para cuidar das lesões mais graves, e médicos legistas.

Isto resultou em um temporário “superfornecimento” de cuidados terciários a estas populações4, tendo impacto positivo na redução da mortalidade por lesões. Para se ter uma idéia desta mobilização, em determinado momento o hospital de campo de Meulaboh (local muito atingido) contou com 20 cirurgiões.

Da mesma forma, havia preocupação com a ocorrência de epidemias, comuns em situações de desastres, e/ou aumento da transmissão de doenças que eram endêmicas naqueles países. A organização de um sistema padronizado de informações para o estabelecimento de vigilância epidemiológica de doenças transmissíveis foi prioridade imediata da OMS. Vários profissionais de saúde foram treinados nestes países.

Problemas posteriores e estado atual

Centenas de milhares de desabrigados encontravam-se (e ainda permanecem) em abrigos muitas vezes lotados, cuja condição sanitária e de higiene é precária. Portanto, a ocorrência de doenças infecciosas é uma preocupação central. A OMS entende que a grande cooperação e coordenação dos esforços fizeram com que não fossem registradas epidemias até o presente momento (18/2/2005). Porém, considera-se que estas populações permanecem vulneráveis.

Além disso, como o sistema de vigilância estabelecido pode apresentar falhas, visto que alguns países podem estar com dificuldades operacionais, a Organização Mundial da Saúde está finalizando um amplo relatório sobre a ocorrência de doenças infecciosas na área afetada pelo Tsunami. Casos de sarampo, malária e diarréia permanecem em níveis aceitáveis. Inicialmente, havia grande preocupação com a ocorrência de malária e dengue na região.

Na Índia estão sendo distribuídos inseticidas. A Indonésia e Sri Lanka desenvolveram ampla vacinação para sarampo. A Indonésia registrou alguns casos de dengue hemorrágico e casos de intoxicação alimentar estão sendo investigados. Também foram relatados casos de tétano na região, e vacinação específica foi disponibilizada.

Uma outra preocupação estava relacionada aos danos ao meio ambiente, pois com a destruição de fábricas e locais de estocagem havia a possibilidade de contaminação do solo e água por produtos químicos. Mas isto não foi verificado posteriormente. Problemas em relação à disposição de dejetos ainda persistem, e que pode ser agravado pela estação de chuvas que se inicia na Ásia.

O impacto de uma situação deste tipo na saúde das pessoas abrange muitos aspectos. Em relação à transmissão do HIV, os peritos avaliam a possibilidade de um aumento nas taxas de infecção entre as populações afetadas, não somente por mudanças no comportamento sexual entre os atingidos devido, à situação de pressão sob a qual se encontram, mas também pela desorganização dos sistemas de saúde, incluindo as medidas de segurança do sangue.

Atualmente, o estado nutricional e a saúde mental dos sobreviventes vêm sendo considerados como um grande problema. O suporte psicológico se faz necessário não somente pela perda de familiares, mas pelos sintomas ligados ao estresse pós-trauma a que estão submetidos os sobreviventes. Todos os países atingidos estão desenvolvendo atividades neste sentido. Na Índia, 766 pessoas estão sendo treinadas para o atendimento psicológico de crianças.

Recentemente, uma equipe das Filipinas desembarcou no Sri Lanka para treinamento no atendimento psicológico a crianças.

Lições aprendidas

A despeito de algumas necessidades básicas das populações atingidas ainda não terem sido resolvidas, é importante conhecer o que pode ser aprendido desta experiência. Uma intervenção considerada chave, que ajudou a população devastada a escapar de um segundo desastre, foi a pronta disponibilização dos recursos militares, por parte do governo da Indonésia e por agências internacionais de ajuda, que encontravam-se próximas aos locais de crise. Por meio aéreo, eles forneceram seus estoques de água, arroz, outros alimentos e medicamentos para as populações mais isoladas e fizeram o reconhecimento das rodovias que podiam ser utilizadas. O estabelecimento de hospitais de campo teve papel importante no manejo dos agravos de curto prazo. No caso de haver muitas pessoas com lesões, cuidados terciários devem ser prontamente disponibilizados. Nisto, a ajuda internacional teve papel crucial.

As ações precoces sobre a água e vigilância epidemiológica tiveram papel de destaque no controle de epidemias. Como exemplo, pode ser citada a vacinação de sarampo em campos de desabrigados, que era iniciada logo após a notificação de casos. A questão do suprimento de água, que figurava como uma das principais preocupações inicialmente, está sendo considerada adequada, embora varie de local para local.

É importante ter planos para o enfrentamento de crises agudas que afetem à saúde das pessoas. Nestes momentos, é fundamental obter cooperação de todas as instituições do governo e organizações da sociedade, trabalhando sob uma boa coordenação. Profissionais devem ser treinados para estas situações e deve estar prevista uma ampla mobilização dos mesmos, quando necessário. Existem alguns manuais para a preparação e resposta a situações de crise, disponíveis no site do Centers for Disease Control and Prevention5 e da OMS6, que podem ajudar no planejamento de algumas dessas atividades.



Referências

  1. World Health Organization. South Asia and earthquake and tsunamis – 16 January 2005. Acesso em 17/2/2005. Disponível em:
    http://www.who.int/hac/crises/international/asia_tsunami/en/
  2. OMS - Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e problemas Relacionados à Saúde - 10ª Revisão. Centro Colaborador da Organização Mundial da saúde para a Classificação de Doenças em Português, São Paulo, 1995. 
  3. World Health Organization. South Asia and 
    earthquake and tsunamis. Acesso em 15/2/2005. Disponível em: http://www.who.int/hac/crises/international/asia_tsunami/en/
  4. World Health Organization. Key finds and situation updates. Acesso em 17/2/2005. Disponível em:
    http://www.who.int/hac/crises/international/asia_tsunami/final_report/en/index1.html
  5. World Health Organization. Natural disaster profiles. Acesso em 17/2/2005. Disponível em: http://www.who.int/hac/techguidance/ems/natprofiles/en/
  6. Centers for Disease Control and Prevention. Preparación y respuesta para casos de emergencia. Acesso em 17/2/2005. Disponível em espanhol: http://www.bt.cdc.gov/es/

Coordenadoria de Controle de Doenças