A violência contra a mulher pode ocorrer de
diversas formas, incluindo a violência física, a violência sexual e
o abuso psicológico. Essa é uma questão que, cada vez mais, vem
sendo discutida no mundo inteiro. Dentro disso, no Brasil, no final de
2003, foi aprovada Lei Federal nº 10.778/2003, que institui a
notificação compulsória dos casos de violência contra a mulher
atendida em serviços de saúde, públicos ou privados. O presente
artigo busca chamar a atenção para um dos aspectos mais graves da
violência contra a mulher, que é a violência sexual.
A
violência sexual é considerada como um fenômeno global, ocorrendo
em todos os países, em diferentes culturas e níveis sociais. Embora
a maioria agredida seja de mulheres, ela também ocorre em homens e em
crianças de ambos os sexos. Por isso, a violência sexual pode ser
vista não somente como um problema global do ponto de vista geográfico,
mas também do ponto de vista do sexo e idade.
Esse
tipo de violência determina grande impacto sobre a vida e a saúde
das pessoas. As conseqüências para a saúde podem ser numerosas,
desde a gravidez indesejada até a ocorrência de doenças sexualmente
transmitidas. As conseqüências emocionais podem durar a vida toda. Vítimas
de abuso sexual têm maior probabilidade de sofrer depressão,
desordens pós-traumáticas e tentativas de suicídios durante a vida
adulta do que indivíduos que não vivenciaram situações semelhantes1.
Apesar da imagem da violência sexual geralmente
trazer a idéia de estupro perpetrado por um estranho, na realidade o
sexo forçado ocorre entre indivíduos conhecidos uns dos outros:
membros da família, amigos ou mesmo parceiros sexuais. Coerção
sexual é, freqüentemente, perpetrada contra crianças e
adolescentes, geralmente meninas. As crianças podem ser sexualmente
abusadas por parentes, amigos da família ou outros homens que tenham
relação de poder ou influência, tais como professores. As
adolescentes e mulheres podem ser forçadas a fazer sexo com seus
namorados. Prostituição forçada, tráfico de sexo e turismo sexual
são outras modalidades de violência contra a mulher, que vêm
crescendo em várias partes do mundo.
São
muitas as definições que têm sido utilizadas para conceituar as
diferentes modalidades de crimes sexuais. Todas apresentam dificuldade
em atender adequadamente aos aspectos médico-legais, jurídicos,
psicológicos e éticos que estes crimes envolvem. No entanto, há
concordância em admitir que se trata de um contato sexual não
consentido. De forma ampla, o termo “violência sexual” parece
atender melhor às situações relacionadas ao período de vida
adulta, reservando-se o termo “abuso sexual” para ocorrências
durante a infância e adolescência2;3.
A infecção
pelo HIV no contexto da violência sexual
Entre
os diferentes riscos a que estão expostas as vítimas de violência
sexual, os traumas físicos e ginecológicos, a gravidez, as conseqüências
psicológicas, a possibilidade de desenvolver doenças sexualmente
transmissíveis (DST) e a síndrome da imunodeficiência adquirida
(Aids) são os mais importantes4. Ainda não está
devidamente esclarecido o risco de se adquirir uma DST através da
violência sexual4. O risco biológico de transmissão será
influenciado pelo tipo de exposição sexual (anal, vaginal ou oral),
pela presença de outras DSTs, e pela exposição ou não a secreções
sexuais (esperma) e/ou sangue. Estudos recentes têm observado taxas
de até 60% dessas infecções, com prevalência de 0,8 a 1,6% para o
HIV5;6;7. Um estudo conduzido nos Estados Unidos revelou
que a infecção pelo HIV representa a principal preocupação para
cerca de 70% das vítimas de violência sexual8.
A
conduta adotada pelos serviços de referência em
atendimento às vítimas de violência sexual no Estado de São Paulo9,
também adotada pelo Ministério da Saúde10, é a instituição
da quimioprofilaxia para a infecção pelo HIV após exposição
sexual não consentida. A justificativa para tal conduta encontra
sustentação na quimioprofilaxia recomendada nos casos de acidente
ocupacional, especialmente quando pérfuro-cortante, nos quais há
acumuladas, na literatura, evidências suficientes que sugerem redução
na taxa de infecção11;12.
Estabelecendo um grupo de trabalho e uma proposta
O papel da área da saúde no atendimento a
essas vítimas é inequívoco e fundamental para a prevenção de doenças
sexualmente transmissíveis, gravidez indesejada e suporte psicológico.
Atualmente, este atendimento vem sendo realizado no Estado de São
Paulo por alguns serviços de referência estaduais, municipais ou
universitários. Face à complexidade do problema, bem como a sua
magnitude e transcendência, é importante que esses serviços possam
funcionar de uma forma mais integrada e otimizada, possibilitando, além
disso, a ampliação do número de serviços.
Dentro disso, um conjunto de profissionais
com reconhecida excelência na área, que atua nesses centros de referência,
vem se reunindo com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo,
com o objetivo de elaborar uma proposta para a discussão do problema
e estabelecimento de uma rede de serviços de referência para o
suporte e atendimento às vítimas de violência. Considera-se
importante elaborar as bases técnicas para o atendimento, estabelecer
os fluxos e requisitos mínimos para esse atendimento e promover os
treinamentos que se fizerem necessários.
Por
fim, considera-se que, embora os profissionais de saúde tenham um
importante papel a cumprir no atendimento e acolhimento às vítimas,
o enfrentamento desse problema deve também envolver os diferentes
setores do governo, tais como a segurança pública, justiça e
trabalho, além da sociedade civil organizada.
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