Introdução
A Leishmania. (Leishmania) chagasi, agente etiológico da Leishmaniose
Visceral Americana (LVA), nas Américas, vem mostrando elevado
potencial de urbanização em relação a outras espécies desse gênero.
A introdução do agente etiológico a partir do reservatório doméstico,
em áreas infestadas pelo vetor Lutzomyia
longipalpis, parece ser o fator facilitador da urbanização da
LVA em cidades de médio e grande porte, traduzido por um novo perfil
epidemiológico da doença.
Nesse novo perfil, está incluída
a região de Araçatuba, situada à Oeste do estado de São Paulo (ESP),
onde a LVA foi detectada em cães pela primeira vez em 1998, em zona
urbana deste município, e a sua expansão vem sendo verificada a
partir da adaptação do vetor em municípios vulneráveis (Camargo-Neves
2004b, Camargo-Neves e Gomes 2002). Desde a sua introdução, a LVA em
seres humanos já foi registrada em zona urbana de 24 municípios do
Estado atingindo três regiões administrativas (Araçatuba, Bauru e
Marília).
Em zona urbana vêm sendo
observadas inúmeras dificuldades para a implementação das medidas
de controle tradicionalmente empregadas em zona rural, como o inquérito
sorológico canino semestral para a eliminação de cães positivos e
a borrifação das paredes internas e externas das casas em ciclos
semestrais, por um período de 2 anos. Entre as dificuldades pode-se
citar o tempo exacerbado entre a coleta de sangue e a eliminação do
cão, somado a isto, a recusa da população à medida e a grande
dimensão do trabalho a ser executado, quando se refere às medidas de
controle químico voltadas para o controle do vetor, que se tornam
inviáveis ao longo do tempo (Camargo-Neves 2004a, 2004b). Por outro
lado, verificou-se também que as medidas, mesmo quando bem
empregadas, são autolimitantes chegando a patamares que não conseguem
reduzir a incidência canina, pela alta reposição desta população.
Em estudo conduzido em três áreas no município de Araçatuba,
verificou-se que a eutanásia de cães, associada ou não às
atividades de controle vetorial, foi efetiva em controlar a força de
infecção entre os cães, resultando na redução da incidência
humana, desde que conduzida de forma periódica e sistemática. No
entanto, nas três áreas não se verificou diferença significativa
nas taxas de prevalência canina finais, em relação às iniciais, o
que pode ser explicado, talvez, pela dinâmica da população canina
nestas áreas, dado que se observou alto percentual (de 18,5 a 26,2%)
de cães oriundos de outras áreas que migraram para as áreas
estudadas (Camargo-Neves 2004a).
A eliminação de cães
soropositivos, embora seja uma medida cujos resultados são limitados,
como já mencionado acima, é ainda a única que pode ser dirigida
diretamente à população canina e executada em larga escala, sob o
ponto de vista de saúde pública. Uma outra medida de controle, muito
discutida, para conter a transmissão entre os cães, foi o tratamento
de animais sintomáticos e assintomáticos, por meio de drogas
tradicionalmente empregadas com sucesso no tratamento da LVA em
humanos. Vários autores já demonstraram a baixa eficácia dessa
medida. O uso rotineiro dessas drogas em cães pode induzir à remissão
temporária dos sinais clínicos, não previne a ocorrência de
recidivas e tem efeito limitado na infectividade de flebotomíneos, além
de levar ao risco de selecionar parasitas resistentes às drogas
correntemente utilizadas (Gradoni e col. 1987; Gramiccia 1992; Alvar e
col 1994; Oliva e col. 1995; Poli e col. 1997; Cavaliero e col. 1999).
Outras estratégias visando o
controle da doença mais factíveis referem-se a medidas alternativas
de atuação sobre os flebotomíneos durante o período de pico anual
de densidade da espécie responsável pela transmissão no local, tais
como: o uso de cortinas impregnadas de inseticida do grupo dos piretróides
sintéticos em janelas e portas (Feliciangeli e col. 1995; Perruolo
1995; Killick- Kendrick 1999), o tratamento
tópico
de cães com inseticidas por meio de banho ou aplicação
localizada (Guanghua e col.1994; Reinthinger e col. 2001) que
demonstraram resultados promissores em estudos experimentais no
laboratório e em campo, para as diferentes espécies de flebotomíneos
testados, porém dependente do apoio do proprietário, uma vez que
requer inúmeras aplicações, dado o tempo limitado de atuação do
inseticida, sendo inviável enquanto medida de saúde pública.
Outra abordagem refere-se ao
emprego de coleiras impregnadas com deltametrina a 4%, que mostrou
resultados satisfatórios em experimentos de laboratório, com redução
das taxas de alimentação sangüínea e efeito letal para as
diferentes espécies de flebotomíneos testados em vários países (Killick-Kendrick
e col. 1997; Lucientes 1999; David e col. 2001). O tempo de repelência
foi testado por diferentes autores podendo variar de 32 a 36 semanas (Killick-Kendrick
e col 1997; Lucientes 1999; David e col 2001). Entre os estudos de
campo conduzidos, um dos primeiros a ser publicado foi o estudo
realizado no sudeste da Itália para avaliar o impacto do uso de
coleiras impregnadas com deltametrina em cães, em focos de
leishmaniose visceral canina, cujo vetor é o Phlebotomus Perniciosus. Comparou-se duas áreas, uma controle e
outra tratada, durante as estações de transmissão, nos anos de 1998
e 1999; verificando-se proteção de 86% nos cães da área tratada,
após a segunda estação de transmissão no ano de 1999 (Maroli e col.
2001). No Irã, um estudo conduzido em 18 vilas, destas 9 com intervenção
e 9 controles, verificou-se a redução da incidência em cães com L.
infantum (64%) e em
crianças (decréscimo de 43%) depois de um ano de utilização da
coleira (Gavgani e col 2002). No Brasil, em estudo conduzido por Lima
e col. (2002, dados não publicados) concluiu-se que a utilização de
coleiras impregnadas são mais efetivas para prevenir a transmissão
entre os cães quando comparada com a eutanásia de cães
soropositivos, embora outras avaliações de campo semelhantes a estes
últimos estudos devam ser realizadas com a finalidade de conhecer o
impacto desta medida de controle no comportamento da transmissão,
frente às diversas condições epidemiológicas encontradas no
Brasil.
Neste
sentido, este trabalho teve como objetivo avaliar a efetividade da
utilização de coleiras impregnadas com deltametrina a 4%, como
medida alternativa no controle da LVA visando a redução da prevalência
canina e da incidência na população humana. São apresentados os
resultados preliminares da coorte canina conduzida no município de
Andradina, no período de 2002 a 2004.
Metodologia
Área
de estudo
O estudo foi desenvolvido no município
de Andradina, região administrativa de Araçatuba, no Planalto
Ocidental Paulista. Neste município a estimativa da população em
2002 era de 55.161 habitantes (IBGE, 2000) e da população canina de
15.600 cães, segundo o Instituto Pasteur de São Paulo (comunicação
verbal). O município é dividido, segundo critérios operacionais, em
duas áreas, sendo cada uma delas divididas em cinco setores, onde
também foram consideradas suas características sócio-econômicas
(Figura 1).
Figura 1
Localização geográfica e aspectos da malha municipal e divisão
por áreas do município de Andradina – SP

O vetor L. longipalpis
foi detectado em área urbana do município em 1998 e os primeiros
casos de LVA canina em 1999. Em inquérito canino realizado neste
mesmo ano, a prevalência canina foi de 3,1% e até 2000 não havia
sido registrado nenhum caso humano. A partir de 2001, observou-se o
agravamento da situação epidemiológica, quando então foram
registrados os primeiros casos humanos e 2 óbitos no município. Até
maio de 2002, haviam sido notificados 20 casos humanos correspondendo
a um coeficiente de incidência de 38 casos/100.000 habitantes
e de letalidade de 21,1%; o que justificava uma intervenção
rigorosa no município e, portanto, aliado às medidas usualmente
empregadas, propôs-se o estudo neste município.
Avaliação
da prevalência
canina e
colocação e
manutenção das
coleiras
Coorte canina: Foi constituída uma coorte canina entre outubro de
2002 a outubro de 2004. Foram cadastrados todos os cães domiciliados
existentes no município. Os dados coletados foram registrados em
boletim apropriado, sendo anotados: nome e endereço do proprietário,
número e nome do cão, sexo, idade, tipo de pêlo, cor, data e
resultado do exame sorológico, a data da eliminação e dados sobre
as perdas de observação, quando necessário. As avaliações sorológicas
foram realizadas em intervalos semestrais no 0, 6º, 12º, 18º e 24º
meses.
diagnóstico
sorológico:
As amostras de sangue foram obtidas pela punção da veia marginal
auricular do cão,
utilizando-se estiletes descartáveis. O material obtido foi coletado
em lâminas de papel de filtro Whatmann nº 1, sendo a área embebida
de sangue de 3cm de diâmetro. Cada amostra foi etiquetada com o nome
e número do registro do animal, data, setor e responsável pela
coleta. Para o exame sorológico foi utilizada a reação de
imunofluorescência indireta para detecção de anticorpos da classe
IgG (IFI – IgG), conforme metodologia descrita por Camargo e
Rebonato (1969). Para tanto, foram utilizados kits padronizados por
Bio-Manguinhos da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. Os exames
foram realizados no laboratório regional - Instituto Adolfo Luz (IAL)
de Andradina. O título discriminante foi de 1/40, conforme descrito
por Costa e col. (1991).
Colocação e manutenção das coleiras: Coleiras impregnadas com
deltametrina a 4% Scalibor® foram utilizadas em todos os cães
domiciliados previamente cadastrados, no período de outubro de 2002 a
outubro de 2004. As coleiras consistiam de fitas brancas de 65cm de
polivinil clorido (PVC) pesando 25g e impregnadas com 40mg/g. Todos os
cães foram previamente avaliados sorologicamente e aqueles com
resultado positivo (IFI – IgG) foram eutanasiados, conforme as
normas do Programa de Controle da Leishmaniose Visceral Americana (PCLVA)
do Estado de São Paulo (SES-SP 2000). Todos os cães com resultado
sorológico negativo receberam a coleira conforme o seu peso (<20kg
e >20kg), exceto em cães menores de 3 meses, conforme indicação
do fabricante, a fim de reduzir a chance de efeito adverso a
deltametrina. Os cães errantes foram recolhidos e eutanasiados
conforme as normas do PCLVA no ESP (SES-SP 2000). As trocas das
coleiras ocorreram em abril/2003, outubro/ 2003 e abril/2004.
No intervalo entre as coletas,
todos os imóveis foram visitados para a verificação da presença e
integridade das coleiras e para a detecção de eventuais reações
adversas. Também a população foi estimulada a solicitar a troca, em
caso de quebra, ou reposição em caso de perda, bem como a notificar sintomas que pudessem sugerir um quadro de reação alérgica à
coleira. Nestes casos, esses cães eram visitados por um médico
veterinário, sendo aconselhada a descontinuidade do uso da coleira,
caso o cão apresentasse qualquer sinal de reação de
hipersensibilidade.
Cálculo
da taxa de prevalência canina e incidência humana: As taxa de prevalência canina e os coeficientes de
incidência foram calculados por área e setor do município. A taxa
de prevalência canina pelo número de casos de LVA canina por 100 cães,
calculada pela fórmula:
|
Nº total de casos de LVA
canina presentes na população canina no início do intervalo |
|
| Taxa de Prevalência = |
|
X
100 |
|
População total de cães
expostos ao risco de LVA canina no início do intervalo |
|
E, o coeficiente de
incidência humana, por 100.000 habitantes, calculado pela fórmula:
|
Nº total de casos novos de LVA
por ano |
|
| Coeficiente de = |
|
X
100.000 |
| Incidência |
População total
exposta |
|
Para
o cálculo, foi considerada como população exposta no município, a
estimativa de população segundo o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE 2004). Para a estimativa de população de cada
área e setor, calculou-se, a partir do número de imóveis existentes
no município, a média de indivíduos por imóvel, que foi de 2,6
habitantes/imóvel e a partir do número de imóveis de cada setor, a
população do setor. A população da área foi dada pela somatória
das populações dos setores. Os casos humanos foram obtidos no
Sistema Nacional de Agravos de Notificação – Sinan, revisados pela
vigilância epidemiológica da regional de saúde de Araçatuba (DIR
VI), sendo considerados casos novos por ano aqueles cuja data de início
de sintoma se deu no ano em questão e confirmados por critérios clínicos
e laboratoriais. Foram excluídos para o cálculo da incidência casos
que se configuram como recidivas.
Análise
estatística: As
proporções foram comparadas pelo teste de qui-quadrado (χ2),
corrigido pelo coeficiente de yates quando indicado. Foram
considerados resultados estatisticamente significantes o nível de
significância de 5%.
Para
análise dos resultados foram utilizadas planilhas eletrônicas Excel
(2000) e EPIINFO 6.04d (Dean e col. 1994).
Resultados
No
período de outubro de 2002 a outubro de 2004, 5 avaliações foram
realizadas, porém serão apresentados, neste trabalho, os dados até
abril de 2004. Assim sendo, verificou-se de outubro de 2002 a abril de
2004, redução da população canina do município, variando de
11.486 cães a 8.013 cães, e esta foi acompanhada de uma redução do
número de cães soropositivos e da prevalência canina como pode ser
observada na Figura 2. Esta redução foi observada nas duas áreas do
município, com valores inferiores na área 1 (Figura 3).
Figura
2
Distribuição do número de cães existentes, positivos e taxa de
prevalência canina de leishmaniose visceral americana por ano,
Andradina–SP, 2002 – 2004
Figura 3
Distribuição da taxa de prevalência canina de leishmaniose
visceral americana por área e período de avaliação. Andradina
– SP, 2002 – 2004

Quando analisada os valores das taxas de prevalência canina
por setor, verificou-se redução no período em todos os setores das
duas áreas (Figuras 4 e 5), exceção aos setores 1 e 4 da área 2
(Figura 5), quando observou-se um aumento dos valores das taxas da
terceira para quarta coleta, no entanto esta diferença não foi
significativa (p>0,05).
Figura 4
Distribuição da taxa de prevalência canina de leishmaniose
visceral americana por setores e período de avaliação, Área 1,
Andradina – SP, 2002 – 2004
Figura 5
Distribuição da taxa de prevalência canina de leishmaniose
visceral americana por setores e período de avaliação, Área 2,
Andradina – SP, 2002 – 2004

Com relação aos
casos humanos, a partir de 2001 observou-se um aumento do número de
casos, chegando em 2002 a serem registrados 19 casos. Em 2003, com a
intervenção por meio da utilização das coleiras, verificou-se uma
pequena redução no número de casos e do coeficiente de incidência
e, somente em 2004, uma redução importante do número de casos foi
observada até o mês de outubro registrando-se apenas 2 casos e
incidência de 3,6 casos/100.000 habitantes (Figura 6).
Figura 6
Distribuição do número de casos de leishmaniose visceral canina e
coeficientes de incidência por ano. Andradina – SP, 1999 a 2004

Quando comparadas às
taxas de prevalência canina e os coeficientes de incidência humana
por área por ano (Figuras 7 e 8), verificou-se a redução dos dois
indicadores nas duas áreas, observando-se, na área 1, em abril/2004,
valores de prevalência canina inferiores a 5%.
Figura 7
Taxa de prevalência canina e coeficiente de incidência de
leishmaniose visceral americana por ano, Área 1, Andradina – SP,
2002 – 2004

Figura 8
Taxa de prevalência canina e coeficiente de incidência de
leishmaniose visceral americana por ano, Área 2, Andradina – SP,
2002 – 2004
 Com relação ao
número de coleiras repostas por quebra ou perda verificou-se que das
36.638 coleiras utilizadas, 1796 foram utilizadas para reposição,
observando-se taxa de
reposição para o período do estudo foi de 4,9%, conforme pode ser
observado na Tabela 1.
|
Avaliação
|
Nº de
Cães
|
Nº de Coleiras
|
|
Colocadas
|
Respostas
|
|
Nº
|
%
|
Quebra
|
Perda
|
Total
|
%
|
|
out/02
|
11.486
|
10.112
|
88,0
|
296
|
256
|
552
|
5,5
|
|
abr/03
|
9.409
|
9.772
|
103,9
|
134
|
464
|
592
|
6,1
|
|
out/03
|
8.013
|
7.837
|
97,8
|
28
|
52
|
80
|
1,0
|
|
abr/04
|
8.355
|
8.917
|
106,7
|
129
|
443
|
572
|
6,4
|
Discussão
Os resultados obtidos até o momento apontam para uma
efetividade da utilização das coleiras impregnadas com deltametrina
associada às demais medidas de controle, dado que a eliminação de cães
soropositivos não foi interrompida, não foi possível afirmar que
apenas a utilização da coleira levaria a uma redução da prevalência
canina. Porém, ficou evidente, neste estudo, a associação entre os
valores das taxas de prevalência canina e os coeficientes de incidência
humana. Nas duas áreas observou-se redução dos dois indicadores,
provavelmente pela redução da força de infecção entre os cães, o
que implicaria numa menor chance de infecção do vetor, devido à
barreira imposta pelo uso constante da coleira, e conseqüente redução
da incidência humana.
Dados semelhantes desta redução da força de infecção
foram observados com relação à redução da incidência humana,
quando programas de eliminação de cães foram implementados de forma
sistemática. Um estudo clássico foi o realizado por Ashford e col.
(1998), em Jacobina – BA. Estes autores concluíram que a eliminação
da maioria dos cães soropositivos pode afetar a incidência
cumulativa da soroconversão temporariamente, bem como diminuir a
incidência de casos humanos. Recentemente, na avaliação das
atividades do programa realizadas em Feira de Santana - BA (Oliveira e
Araújo 2003) verificou-se redução da prevalência canina e da incidência
humana após cinco anos das ações de controle. Na análise do conjunto
das variáveis operacionais estes autores verificaram que o número de
ciclos de inquéritos caninos levou a uma redução da incidência da
LVA. No entanto, observaram aumento do coeficiente de incidência com
a interrupção das atividades. Esses resultados nos levam a refletir
sobre a necessidade de impor uma barreira entre a fonte de infecção
e o vetor, o que parece ser factível a partir do uso das coleiras,
como observado com os resultados apresentados no município de
Andradina.
Estudos de campo conduzidos em
outros países como Itália (Maroli e col 2001) e Irã (Gavgani e col
2002), bem como o estudo conduzido no Brasil (Lima e col 2002, dados não
publicados), mostraram resultados semelhantes ao observado em
Andradina, com relação à redução da incidência humana. Esses
estudos, porém, tiveram uma abordagem diferente da proposta neste
trabalho, uma vez que compararam áreas com e sem a intervenção.
Talvez por isso possam ser observadas diferenças em um ano após a
intervenção, o que não pode ser verificado no estudo de Andradina.
Observou-se redução dos valores da prevalência canina em
relação aos valores iniciais em todos os setores. O aumento
observado na segunda e terceira coletas pareceu refletir ainda a
soroconversão tardia. Como já foi apontado por outros autores, métodos
sorológicos, como a imunofluorescência, podem detectar anticorpos até
oito meses depois da infecção (Quinnel e col 1997). Além do mais, a
IFI possui sensibilidade inferior quando comparada às demais técnicas
sorológicas (França-Silva 1997; Garcez e col 1996; Genaro 1993;
Braga e col. 1998; Moreno e col. 2002). Em estudo anterior realizado
no município de Araçatuba (Camargo-Neves 2004a), verificou-se que o
período pré-patente pode variar em média de 4 a 5 meses, portanto,
os valores semelhantes da prevalência canina no primeiro ano em
Andradina, a exemplo do que ocorreu em Araçatuba, pode refletir essa
virada sorológica tardia, o que levou a um resultado mais evidente
na redução das taxas de prevalência canina, a partir do segundo ano
de acompanhamento.
O número de cães que tiveram novas coleiras entre as avaliações
devido à quebra ou perda, não parece ter sido o fator que explicaria
estas diferenças entre os setores. Neste estudo, encontrou-se que
4,9% das coleiras tiveram que ser repostas, resultados semelhantes ao
encontrado por Maroli e col. (1999). Porém, diferente dos resultados
encontrados por Lima e col. (2002, dados não publicados), que
relataram uma perda por quebra de 41% nos primeiros seis meses de avaliação,
o que pode ser explicado pelas condições desse estudo, que foi
realizado em zona peri-urbana, em que grande parte da população
canina era parcialmente domiciliada; enquanto em Andradina, o estudo
foi conduzido em área urbana e os cães que participaram eram
domiciliados.
Outras análises ainda deverão ser realizadas para tentar
explicar as diferenças entre áreas; entre os setores e entre as
variáveis que poderiam explicar essas diferenças tais como: a
densidade de cão e classe sócio-econômica da população de cada
setor. Outra questão que também deverá ainda ser abordada, refere-se
ao percentual de recusas para eliminação do cão soropositivo por
setor do município, como também o número de reações adversas, que
implicaria na retirada da coleira do animal.
Cabe lembrar, que a implantação de um programa de controle
da LVA com a utilização ou não deste novo instrumento, requer
estruturação do município e planejamento das ações. Atualmente, o
maior problema que se apresenta nas áreas endêmicas é a
descontinuidade das ações. Os resultados preliminares deste trabalho
apontam para a utilização da coleira como mais um método a ser
empregado no controle da LVA, apesar de ser uma medida comprovada para
a proteção individual do animal (Killick-Kendrick e col. 1997;
Lucientes 1999; David e col. 2001), em saúde pública só faz sentido
se aplicada de modo integral e, ao que parece, por tempo indeterminado.
Não deve ser adotado de modo campanhista, pois requer abrangência na
sua utilização, pela maioria dos cães de uma área, a fim de
reduzir a força de infecção. Ainda não deve ser uma medida que
substitua os inquéritos caninos ou o controle vetorial nas áreas de
maior risco. Deve ser um programa com o envolvimento de outros setores
da sociedade, participação comunitária e individual, e deverá
estar associado a um programa de controle de população animal.
Agradecimentos
À Superintendência de Controle de
Endemias, pelo apoio logístico e financeiro; à Vigilância Epidemiológica
da Região de Araçatuba, pelo apoio administrativo; ao Centro de
Controle de Zoonoses, Secretaria Municipal de Saúde de
Andradina, pelo apoio na coleta das amostras sorológicas e na
eliminação dos cães soropositivos; ao Setor de Andradina do
Instituto Adolfo Lutz, pela realização dos exames sorológicos e à
Intervet, pela disponibilização de um médico veterinário durante
18 meses, para atendimento de possíveis reações adversas
.
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