Introdução
A tendência
epidemiológica da tuberculose se articula com o desenvolvimento das
sociedades. Ou seja, as condições de vida das diferentes classes
sociais, nas diferentes partes do mundo, apresentam estreita relação
com o número de doentes e com a disseminação da doença. Baseados
nesses índices, os programas de controle atualmente se esforçam em
quebrar a cadeia de transmissão, sendo que a forma de prevenção se
baseia no tratamento precoce com o objetivo de impedir a proliferação
da doença.
A descoberta dos antibióticos
eficazes chegou a dar esperanças de que a tuberculose deixaria de ser
um problema de saúde pública, assim como ocorrera com a varíola(1).
Mas a doença, hoje, com o advento da Aids, somado aos
abandonos de tratamentos e o aparecimento de linhagens do bacilo
resistentes às drogas, é considerada re-emergente(2).
Embora a quimioterapia seja eficaz, a não aderência ao tratamento é
um dos principais motivos para que os índices de incidência,
mortalidade e tuberculose multiresistente sejam mais altos do que o
preconizado pelo Ministério da Saúde.
A discussão sobre o tratamento da
tuberculose tem sido ampliada para além das fronteiras da clínica.
Ou seja, o diagnóstico e a prescrição de medicamentos eficazes ao
doente não são suficientes para que o tratamento seja realizado.
Recentes estudos(3)
realizados no Brasil comprovam que o nível de educação incipiente,
o baixo nível socioeconômico, o mercado de trabalho informal e os
hábitos de vida prejudiciais à saúde são os fatores relacionados
à população que menos adere ao tratamento. Vale ressaltar, sobre esse ponto de vista, o seguinte questionamento: como tratar uma doença,
reconhecidamente de determinação social, com procedimentos típicos
do enfoque bacteriológico(4)?
As pesquisas sociais e
comportamentais sobre as pessoas que adoecem auxiliam, portanto, na
compreensão da dimensão social e psicológica do doente. Isto é, o
entendimento das condições de aceitação de diagnóstico, de
tratamento e de cura pode elucidar as medidas necessárias para se
combater a doença, já que a existência de tratamento e a
disponibilidade da medicação não são suficientes a esse propósito.
No Município de Jacareí os índices
de cura e abandono de tratamento da tuberculose não contemplavam os
índices preconizados pelo Ministério da Saúde. Em 1997, a equipe do
Programa de Controle da Tuberculose (PCT) contava com o médico
tisiologista e uma auxiliar de enfermagem. Todos os pacientes
realizavam o tratamento auto-administrado. No ano seguinte, a equipe
passou a contar com os profissionais das áreas de psicologia, serviço
social e farmácia. O acréscimo do quadro da enfermagem e o
atendimento da co-infecção pelos médicos infectologistas
possibilitaram a ampliação da assistência aos doentes. A partir da ampliação desta equipe, foi possível
promover a implantação gradual do Dots (Direct
Observed Treatment Short-Course)(5).
Método
Considerou-se que, além da
supervisão da ingestão do medicamento, o tratamento supervisionado
compreende, sobretudo, o acolhimento do paciente e de seus familiares.
Este acolhimento envolveu múltiplas ações, dentre elas:
1.
Acolhimento multidisciplinar do paciente e de seus
familiares
Considerando que as concepções de
saúde e doença são distintas, dependendo do meio sociocultural em
que o sujeito se insere, a imposição de um tratamento medicamentoso,
razoavelmente longo, pode não ser facilmente recebida pela grande
maioria da população que adoece de tuberculose(6).
A importância da terapia medicamentosa é um conceito científico que
nem sempre pode ser compreendido e aceito pelas pessoas que não
compartilham desse paradigma. O acolhimento multidisciplinar do
paciente e de seus familiares tem como objetivo propiciar o
conhecimento mútuo das impressões sobre doença e tratamento,
promover esclarecimentos e procurar estabelecer o vínculo que favoreça
a confiança no saber científico.
2.
Atendimento psicológico e social do paciente
O adoecer envolve questões que
ultrapassam os limites da biologia. Da mesma forma que se concebe que
o processo de adoecimento da tuberculose requer uma explicação
multifatorial, e não somente a relação de causa e efeito entre o
bacilo e o corpo infectado, ressalta-se a importância de se conduzir
maior entendimento em relação ao sujeito doente e seu tratamento.
Justamente por existir um sujeito mediador entre o bacilo de Kock e a
quimioterapia, é importante olhar e escutar esse sujeito. Submeter-se
a um tratamento requer a aceitação do lugar social de “doente”,
destituindo-se, em algumas vezes, de outros papéis sociais, como de
provedor da família. Sendo a tuberculose uma enfermidade que está
associada, no imaginário social, à pobreza e aos vícios, traz
efeitos de estigmatização(7),
pois qualifica o sujeito como “causador” de sua própria doença.
O atendimento psicológico e social busca possibilitar maior compreensão
sobre o processo de adoecimento e acompanhar o tratamento e as implicações
que este pode acometer.
3.
Aquisição de recursos favorecendo o Dots
A situação familiar, as carências
pessoais, a dependência química(8)
e a miséria pecuniária são alguns dos motivos identificados como
contribuintes no abandono do doente por seu tratamento. Busca-se,
portanto, promover algumas condições favoráveis, como o
fornecimento de cestas básicas e vale-transporte, para que o sujeito
possa realizar seu tratamento.
4.
Aconselhamento para teste de HIV
As medidas de prevenção e
controle do HIV e da tuberculose não podem ser pensadas
separadamente. Ao se considerar que a co-infecção pode elevar em 25
vezes o risco de desenvolver a tuberculose doença(9),
diante dessa última, é importante investigar a sorologia para o HIV.
Tal procedimento requer a prática de aconselhamento(10)
ao paciente, ou seja, a orientação e o preparo para um possível
diagnóstico positivo.
5.
Busca ativa dos faltosos
O acolhimento mencionado
anteriormente tende a facilitar a busca dos faltosos, já que as
visitas domiciliares e o contato com os familiares estão presentes
durante o tratamento, independente da assiduidade na tomada da medicação.
Contudo, por razões diversas, que mereceriam outro estudo e outra
abordagem, existe o não comparecimento do paciente à consulta ou ao
Dots. A intervenção, nesse caso, é de busca ativa dos faltosos e a
retomada do acolhimento inicial.
Partindo dessas ações, efetuou-se
o levantamento estatístico do número de pacientes submetidos ao
tratamento supervisionado, correlacionando-o com os índices de cura e
abandono de tratamento entre 1998 e 2003. A fonte utilizada foi o
banco de dados do sistema informatizado de notificação compulsória
(EPI-TB), desenvolvido pelo Estado de São Paulo.
Resultados
No início da ampliação da equipe do PCT, em
1998, nenhum paciente realizou o tratamento supervisionado. Os índices
de cura e abandono foram de 74% e 9,20%, respectivamente. A evolução
destes índices pode ser observada no gráfico a seguir.
Gráfico
1
Índices de cura, abandono e implantação DOTS
Fonte: banco de dados EPI-TB – Depto. de Vigilância
à Saúde de Jacareí
Em 2003, cerca de 45% dos pacientes
realizaram o tratamento supervisionado. Os índices de cura e de
abandono foram de 87,8% e 1,20%, respectivamente, alcançando os índices
preconizados pelo Ministério da Saúde.
Discussão
Ainda que se compreendam as dimensões
sócio-econômica e psicológica no processo de adoecimento, a
tuberculose exige soluções prementes para a quebra da cadeia de
transmissão. Embora muitos pacientes se submetam inicialmente à
terapia medicamentosa, em busca, também, da recuperação imediata de
sua saúde, no decorrer de seu tratamento podem tornar-se assintomáticos.
Considerando que os diferentes
valores culturais subjacentes da sociedade influenciam na maneira de
diagnosticar e tratar as doenças(11),
os pacientes que não compartilham do saber científico, e não
estabeleceram o vínculo que envolve confiança e crença na
autoridade desse saber, podem abandonar seu tratamento, já que a ameaça
em perder a saúde (os sintomas) desapareceu(12).
O Dots, aplicado em sua amplitude
— ou seja, não compreendendo apenas o fornecimento de medicação
ao paciente, mas, inclusive, seu acolhimento —, tem se mostrado uma
prática efetiva na aderência ao tratamento da tuberculose.
Este estudo demonstra que o aumento
de casos de doentes em tratamento supervisionado vem acompanhando o
acréscimo no número de curas e a diminuição dos abandonos de
tratamento.
Agradecimentos
A todos os profissionais da equipe do Programa de Controle da
Tuberculose, em especial ao dr. Leonardo C.C. Reis. À Divisão de
Tuberculose, do Centro de Vigilância Epidemiológica “Professor
Alexandre Vranjac”. À diretora do Departamento de Vigilância à Saúde,
Marisa Braga, e ao secretário de Saúde do Município de Jacareí,
Eduardo Guadagnin. À Adriana Pereira Silva.
Referências
Bibliográficas
1.
Bardet,
Jean-Pierre et al. Peurs
et Terreurs face à la contagion – Chólera, Tuberculose, syphilis
XIX – XX siècles. Paris,
Librairie Arthème, 1988.
2.
Re-emergente é o termo utilizado para designar uma doença que
reaparece após um período de declínio significativo. Ruffino-Netto.
“A associação entre alcoolismo e tuberculose pulmonar”. Revista
Saúde Pública. São Paulo, 1989; 13:183-94.
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