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A doença diarréica é uma das doenças mais comuns em
crianças em todo o mundo. Embora as evidências
demonstrem o declínio da mortalidade nessa última década, em algumas áreas
subdesenvolvidas a diarréia permanece uma das principais causas de morte em
crianças menores de 2 anos de idade. A morbidade associada à doença também
é importante; crianças são acometidas por 1 a 10 episódios de diarréia
anuais(17). Em países desenvolvidos, assim como no Brasil, sua
importância está relacionada ao impacto na população, traduzido
pelos seus danos à saúde, afetando o desenvolvimento infantil, bem como à
sociedade, pelos custos gerados pela demanda aos serviços médicos, atendimento
ambulatorial, pronto atendimento, hospitalizações (custos diretos) e as perdas
de dias de trabalhos, de escola, gastos com medicamentos, transportes, etc.
(custos indiretos). Adicionalmente, o conhecimento
da interação de diarréia persistente e má nutrição como causa de
mortalidade tem reforçado a necessidade de desenvolvimento de programas de
intervenção além do tratamento baseado em terapia de reidratação oral.
A etiologia das diarréias pode envolver vários agentes, como
vírus, bactérias e parasitas. Os agentes bacterianos são relativamente mais
importantes em países em desenvolvimento, enquanto os agentes virais são mais
relevantes em países industrializados. A importância desses agentes está
relacionada às condições de higiene e saneamento básico da população(2).
Os rotavírus são reconhecidamente os agentes virais mais importantes
associados a doenças diarréicas agudas, atingindo humanos e várias
espécies de mamíferos e aves(2). Infecções por rotavírus são comuns em
muitas dessas espécies e muitas vezes podem ocorrer de forma subclínica. Os
episódios de diarréia podem variar de um quadro leve, com diarréia líquida e
duração limitada, a quadros graves com febre, vômitos e desidratação. As
conseqüências da infecção estão relacionadas à idade. Embora possam
infectar indivíduos e animais de todas as idades, infecções sintomáticas,
isto é, diarréias, geralmente ocorrem em crianças na faixa etária de 6 meses
a 2 anos. O rotavírus tem sido a principal causa de surtos de diarréia nosocomial e em
creches e pré-escolas. Apesar da doença diarréica ocorrer primariamente em
crianças, também é comum em jovens e adultos, associada a surtos esporádicos
de diarréia em espaços fechados como escolas, ambientes de trabalho e
hospitais(6, 22).
Anualmente, estimam-se 130 milhões de casos de diarréia por rotavírus, com
500 mil mortes de crianças abaixo de 5 anos de idade e dois milhões de
hospitalizações. Nos países em desenvolvimento cerca de 1.200 crianças
morrem diariamente de diarréia por rotavírus(20). Embora os casos se concentrem em crianças de países em desenvolvimento, esse
vírus distribui-se universalmente, infectando todas as crianças no mundo,
de distintas classes sociais.
Os rotavírus, eliminados em grande concentração nas fezes infectadas, são
transmitidos pela via fecal-oral, por água, alimentos e objetos contaminados,
por pessoa a pessoa e, provavelmente, secreções respiratórias, mecanismos que
permitem a disseminação explosiva da doença.
Devido ao elevado índice de morbi-mortalidade associada à diarréia por
rotavírus, ficou evidente a necessidade de medidas urgentes como o
desenvolvimento de vacinas contra esse vírus, cujo objetivo principal é
a atenuação da gravidade da doença diarréica(8).
O rotavírus pertence à família Reoviradae. A partícula viral
completa é composta por triplo capsídeo protéico contendo o genoma de RNA de
fita dupla segmentado, que codifica proteínas estruturais e não estruturais.
As principais proteínas estruturais - VP4, VP6 e VP7 - atuam como antígenos na
indução de anticorpos neutralizantes, provocando resposta imune protetora, e
formam a base da classificação atual dos rotavírus em grupos (A - H), e em
genótipos/sorotipos P (VP4) e G (VP7). Os genótipos são determinados por
métodos moleculares, enquanto os sorotipos, por métodos de neutralização. A
detecção dos rotavírus do grupo A pode ser realizada através de reações
imunoenzimáticas, em ensaios de captura de antígeno diretamente do material
fecal, empregando-se vários kits comerciais desenvolvidos para o
diagnóstico rápido(24).
Devido à dificuldade na propagação desses vírus em culturas celulares e,
conseqüentemente, à dificuldade em produzir reagentes sorotipos específicos,
grande ênfase foi dado na análise do genoma viral. Com o avanço das técnicas
de biologia molecular e a disponibilidade de dados da seqüência de vários
sorotipos de rotavírus, foram desenvolvidos ensaios moleculares de Reação de
Polimerase em Cadeia (PCR) empregando-se primers específicos. Essas
técnicas de genotipagem têm gerado importantes informações sobre a
epidemiologia molecular dos rotavírus(8).
Até o momento, foram identificados 10 G (VP7) e 9 P (VP4) tipos de rotavírus
humanos. Os tipos G1 a G4 são os mais comuns e para os quais estão sendo
desenvolvidas vacinas; os tipos G8 e G12 são raramente encontrados. O tipo G9
é prevalente na Índia, ocorrendo em vários países a partir do final da
década de 90. Os rotavírus tipos G6 e G10, que eram exclusivamente patógenos
bovinos, foram detectados em crianças com diarréia(9). O tipo G5, reconhecido
como patógeno em suínos em vários países, foi pela primeira vez encontrado
em amostras de fezes diarréicas de crianças brasileiras(11).
Rotavírus no Brasil
Na década de 80, foi implantada uma rede de laboratórios em oito Estados e no
Distrito Federal para o estudo da diarréia por rotavírus no Brasil. Os dados
obtidos demonstraram que a freqüência desse agente variou entre 13% a 20% nos
diferentes Estados (figura 1). No Brasil a
sazonalidade é variável, com aumento na incidência dos rotavírus nos meses
mais frios ou no período de seca, entre maio e setembro, nos Estados das
regiões Central e Sudeste. Por outro lado, no Norte e Nordeste a ocorrência de
rotavírus se distribui durante todo o ano(18).
Figura 1
Incidência de rotavírus no Brasil, no período de 1983 a 1992

Fonte: Pereira et alii, 1993
Estudos realizados nos últimos dez anos no País demonstraram a circulação
dos tipos mais comuns de rotavírus (G1, G2, G3, G4 e P[4], P[6] e P[8]),
observando-se maior incidência de rotavírus tipo G1P[8] e a emergência do
tipo G9, a partir de 1998(1, 4, 5, 13, 14, 21, 24). Foram detectados tipos
incomuns de rotavírus em amostras humanas, como rotavírus G5 e P[3](4,
11, 13, 23, 24), e misturas de tipos de rotavírus em uma mesma amostra(13,
24). A
presença de múltiplos tipos G e/ou P nas amostras, consistente com infecções
com mais do que um tipo de rotavírus, aumenta a chance de rearranjos genéticos
durante infecções naturais(23).
A monitoração contínua dos genótipos circulantes na população é
importante para o futuro desenvolvimento de uma vacina contra a doença por
rotavírus, como também para detecção de rotavirus reassortants,
após a introdução da vacina.
Surto de diarréia por rotavírus
Desde o início da década de 90 foi enfatizada a investigação de surtos
de doenças de transmissão hídrica e alimentar de notificação compulsória,
no Estado de São Paulo. Com a re-emergência da cólera, foi implantado no
território nacional o Programa de Monitoração da Doença Diarréica Aguda
(MDDA), para a detecção precoce de surtos de diarréia(16).
De maio a outubro de 2004 foi observado aumento nos casos de diarréia aguda em
São Paulo, sendo notificados ao Centro de Vigilância Epidemiológica 2.364
casos suspeitos de diarréia por rotavírus. No mesmo período, o Laboratório
de Vírus Entéricos do Instituto Adolfo Lutz, referência macrorregional para
rotavírus, recebeu 753 amostras de fezes de pacientes com sintomatologia
diarréica provenientes de surtos em diversos municípios.
Para o diagnóstico laboratorial do rotavírus foram utilizadas
metodologias de ensaio: imunoenzimático (EIE) para detecção de antígeno;
eletroforese em gel de poliacrilamida (EGPA) para análise do genoma viral; e PCR
para genotipagem(24).
Observando a distribuição dos casos confirmados de diarréia por rotavírus
desde o início deste ano, verificamos a ocorrência de positividade para
rotavírus a partir de maio, com pico no mês de setembro e declínio em outubro
(figura 2). O rotavírus foi detectado em 42,2 % do
total das amostras analisadas no período de maio a outubro, sendo que os tipos
G1 e G9 foram os mais freqüentes.
Figura 2
Distribuição de casos confirmados de diarréia
aguda por rotavírus, no período de janeiro a outubro de 2004, no Estado de
São Paulo

Fonte: Banco de dados do Laboratório de Vírus Entéricos,
Instituto Adolfo Lutz, SES/SP
A diarréia por rotavírus foi diagnosticada principalmente em crianças menores
de 5 anos de idade, com pico de ocorrência entre os 7 a 12 meses. A infecção
por esse vírus também atingiu crianças jovens, adultos e idosos (figura 3).
Figura 3
Distribuição de casos confirmados de diarréia
aguda por rotavírus, segundo a faixa etária dos pacientes, no período de
maio a outubro de 2004, no estado de
São Paulo

Fonte: Banco de dados do Laboratório de Vírus Entéricos,
Instituto Adolfo Lutz, SES/SP
As informações obtidas estão sendo analisadas para a caracterização
epidemiológica do surto.
Considerações finais
A notificação de surtos de diarréia aguda é de extrema relevância para
desencadear uma investigação minuciosa quanto a sua origem, se em domicílios,
creches, escolas, hospitais, ou devido a problemas ambientais, para se conhecer
as possíveis causas de transmissão e para que medidas eficazes de controle
possam ser adotadas o mais precocemente possível. É também importante lembrar
que a identificação de um caso de rotavírus merece a busca ativa de outros
casos, pois pode estar relacionado a surtos.
As orientações para a população em relação aos cuidados com a criança com
diarréia por rotavírus são as mesmas para as diarréias em geral, lembrando
que os casos podem ser mais graves nas menores de 2 anos. Mães de crianças com
início de sintomas de diarréia ou vômitos devem ser orientadas para oferecer
imediatamente soro caseiro ou sais hidratantes e água tratada, para prevenir a
desidratação. Não suspender alimentação e procurar imediatamente o serviço
médico para o tratamento adequado.
Devido à importância epidemiológica dos rotavírus nas diarréias graves,
inúmeros esforços têm sido realizados na elaboração de uma vacina eficaz
para o combate à doença. O desenvolvimento da vacina de rotavírus foi
ajustado para a distribuição de cepas de vírus vivos, atenuadas, por via
oral. Atualmente, várias vacinas estão sendo desenvolvidas e testadas dentro
do Programa de Vacina de Rotavírus da PATH - Program for Appropriate
Technologies in Health (tabela 1). Testes vacinais para demonstrar a eficácia
dessas vacinas deixaram claro que a meta é prevenir a diarréia grave, que pode
levar à desidratação, reduzindo a morbidade e a mortalidade infantil(3, 6, 9,
11, 14, 19).
Tabela 1
Vacinas de rotavírus em desenvolvimento

O conhecimento da distribuição dos tipos de rotavírus na população é
importante como subsídio para as estratégias de desenvolvimento de vacinas. Os
resultados obtidos em trabalhos no Brasil, em contraste com outros países,
demonstram que as infecções humanas por rotavírus são peculiares,
apresentando alta freqüência de infecções mistas, tipos incomuns, além dos
tipos mundialmente distribuídos. Estudos epidemiológicos mais abrangentes são
necessários para a futura inclusão de novos genótipos/sorotipos nas vacinas a
serem introduzidas no Brasil.
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